Crítica: “Senna”

Senna (Senna)

O documentário que redesenhou o gênero homenageia em grande estilo o gênio Ayrton Senna.

O filme acompanha apenas a carreira de Ayrton na F1. As passagens das corridas de kart, onde ele começou, ficaram em terceiro plano. E os relacionamentos com Maria da Graça (sim, este é o nome da tia com crise de meia idade, Xuxa) e Adriane Galisteu e com seus familiares não ganharam quase nenhum destaque. O documentário foca-se apenas na vida profissional de Ayrton.

Nele acompanhamos os últimos 10 anos de vida de Ayrton. Logo no seu início, somos jogados no ano distópico de 1984 onde Senna inicia sua brilhante carreira com a equipe da Toleman. Neste ano, ganhou dois pódios e conheceu seu rival Alain Prost (o famoso “professor”, apelido ganho pelos inúmeros cálculos que fazia para deixá-lo na melhor posição no campeonato). É interessante aprofundar esta rivalidade de Prost com Senna. A forma que o filme se posicionou em relação a Prost é clara. Ele é o antagonista da história – existe uma passagem do GP do Brasil que é possível ouvir os brasileiros (somos muito educados, não?) em uníssono para Prost “Filho da P*(&!, Filho da P*&%$!”, mas o filme aponta também que Ayrton não era nenhum santo apesar de ter caráter.

Esta relação de guerra psicológica e de falso camaradismo com Prost, fica pior no ano de 1989, onde os dois “tocam” os carros na disputa do GP do Japão que era a corrida que decidiria o campeão da Fórmula 1 naquele ano. Apesar de Senna ter ganho a corrida, Prost consegue seu título após uma conversa com o francês “mafioso” Jean-Marie Balestre (“A MINHA DECISÃO É A MELHOR DECISÃO!” aqui vai uma pequena amostra da simpatia de Balestre) que, na época, era o presidente da FIA – Federação Internacional do Automóvel.

Logo no ano seguinte, Senna fecha contrato com a Lótus. E, a partir daí, passamos a acompanhar sua vida e seus contratos até 1994 onde ocorre o acidente fatal do GP de San Marino.

Este documentário foge de seus padrões, não pega conhecidos de Senna e os põe para depor diretamente para as câmeras. Nele só ouvimos as vozes (inclusive a do Galvão Bueno, agora sua voz ficou imortalizada mesmo, ou seja, ele nunca irá calar a boca!) dos inúmeros depoimentos, enquanto acompanhamos a coletânea de vídeos que a produção do filme reuniu, que incluem filmes da própria família Senna, das câmeras do cockpit e das reuniões que aconteciam antes das corridas (apesar de estas terem sido pouco exploradas).

A direção do inglês Asif Kapadia é brilhante. Ele cumpriu o que havia prometido enquanto ajudava no desenvolvimento do filme: “Senna irá contar sua própria história.” É fácil esquecermos diversas vezes que estamos assistindo a um documentário, já que o filme inteiro segue uma linearidade interessante onde existem os momentos de alegria, tristeza, angústia, alívio entre outras tantas emoções que Senna vivenciou e evidenciou para as câmeras. No final do filme, é visível a preocupação e o stress que Senna passava: seu olhar era concentrado e compenetrado, seu objetivo não era vencer aquele GP amaldiçoado (dois pilotos morreram, quatro acidentes aconteceram e vários torcedores saíram feridos após uma colisão entre os carros de Lehto e Lamy), era sobreviver àquela corrida.

A música é super envolvente. As composições dos violinos e pianos emocionam no fim (e durante) do filme onde somos obrigados a ver novamente a morte de nosso companheiro. É importante citar que nosso lendário samba também marca presença.

Agora mais do que nunca Ayrton deixou de ser gênio e virou um herói, um mito, um patriota e todos os adjetivos de grandeza que você possa imaginar. O filme é ótimo e emociona os que viveram esta época dourada para o Brasil. Mas eu me pergunto, porque nenhum diretor do cinema brasileiro tomou a iniciativa para fazer um filme de um de seus maiores personalidades? Será que nunca ocorreu a idéia na cabeça de ninguém para fazer um filme sobre Ayrton? Teremos que nos acostumar a ver nossos ídolos sendo retratados por filmes estrangeiros agora? Para esta última pergunta só o futuro responderá quando algum gringo fizer um filme sobre o Chacrinha, Chico Buarque, Caetano Veloso ou a ditadura de 64.

Senna morreu no dia 1º de maio de 1994, 21 dias depois eu nasci. Minha mãe conta, em seu “Diário de Gravidez” que, nesse dia, acordou com o grito do Galvão Bueno no momento do acidente e, depois da confirmação da morte de Ayrton, ela foi para o hospital – achou que eu iria nascer – e nunca, nunca viu tamanha tristeza no País. O luto era geral e estampado no rosto de todos os brasileiros. Dois meses e dezessete dias depois da grande tristeza brasileira nosso País conquista seu Tetracampeonato na Copa do Mundo de 1994 no dia 17 de julho. E a seleção oferece a vitória ao Senna. Realmente, este foi um ano muito intenso!

NOTA: 4.5/5.0

Uma pequena amostra de seu talento:

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Publicado em Críticas por matheusfragata. Marque Link Permanente.

Sobre matheusfragata

Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar. Prazer, este sou eu.. Gosto de conhecer novas pessoas, inclusive vocês, caros leitores. Um texto não define o caráter de um homem. Lembrem-se disto antes de atirar, mesmo que virtualmente, a primeira pedra.

Uma resposta em “Crítica: “Senna”

  1. Achei muito bom o filme. Este jeito de fazer documentário foi realmente genial, misturando uma narrativa do próprio Ayrton com varias outras, como Galvão Bueno, a irmã de ayrton, um comentarista ingles, aquele comentarista da globo, enfim, muda a imagem classica do documentario aonde fica um narrador em terceira pessoa contando uma histórinha.

    Quando eu fui ver com minha mãe e falei com ela que era um documentário, ela ficou meio na duvida, achando que ia ser aqueles documentários chatos estilo Discovery Channel, mas o filme consegue achar e explorar varios conflitos da carreira de Senna de uma maneira que envolve o espectador. afinal de contas, quem não sentiu raiva do Prost e do presidente da FIA? Quem não se emocionou ao rever a batida de Senna?

    Enfim, é um filme que reforça e eterniza o maior ídolo que o país ja teve. Se o Senna era mesmo esse cara simpatico, justo e tudo mais, não da realmente para saber, afinal de contas a TV esta sempre criando imagens que nem sempre são fiéis as pessoas. Mas a cena final do filme, que mostra o enterro de Senna com aqueles clássicos flashes de outros momentos de sua vida, emociona e levou uma boa parte dos adultos ali as lágrimas, inclusive arrancando palmas.

    Um filme genial, que vale a pena ser visto, e toca em um dos pontos mais sensíveis dos brasileiros: a morte dramática de seu maior ídolo. A semana mais triste que meus pais ja viveram.

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