Crítica: “Tropa de Elite 2”

Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro

Depois de quase três anos, Tropa de Elite está de volta e dessa vez não traz somente a ultraviolência do primeiro filme. Apresenta a violência moral que nós, brasileiros, temos que agüentar pela falsa demagogia e a nossa velha e  conhecida hipocrisia.

Passaram-se treze anos após a bala da 12 na cabeça de Baiano. Nascimento deixou de ser capitão e tornou-se tenente-coronel. Já Mathias virou capitão e o BOPE cresceu e ganhou o seu devido respeito. Isto até uma rebelião em Bangu I, onde as coisas acabam mal para Nascimento e Mathias.

Mathias executou Beirada que fazia de refém o ativista Diogo Fraga, que condena o ato publicamente, resultando na exoneração de Nascimento e de Mathias do BOPE. Nascimento vira Subsecretário de Inteligência e Mathias volta a ser PM. Além disso, Fraga candidata-se a deputado e casa com a ex-mulher de Nascimento (Rosane).

Graças a isso, Nascimento começa a enxergar quem realmente é o bandido por trás da história. Não são os traficantes, os peões do jogo, mas sim os chefes das milícias, uma espécie de máfia – o crime organizado, que controlam as favelas do Rio de Janeiro. Quando as milícias atingem Nascimento, ele se determina a por um fim nesta história.

É incrível a evolução do primeiro filme para esse. A violência diminuiu, a história ganhou ainda mais profundidade, os personagens tornaram-se mais únicos do que já eram e os bordões são quase inexistentes.

O roteiro escrito por Padilha e Mantovani é crítico e ousado, simplesmente brilhante: cria na ficção a realidade que é escondida debaixo do tapete expondo brutalmente para todo o Brasil ver a situação em que se encontra a polícia, mostrando muito mais além de corrupção. A trama é tão cativante que é impossível pensar em outra coisa além dela durante e após o filme. Ele mais se destaca na narração em off de Wagner Moura, usada corretamente (um milagre para o cinema nacional), nas horas do programa sensacionalista do deputado Fortunato, na bela evolução dos personagens e na total desconstrução da crença de Nascimento, que muda totalmente a maneira de ver as coisas.

Boa parte das atuações são excelentes. Wagner Moura, muito mais a vontade no papel, está outro Nascimento. Deixou de ser um homem inquieto e tornou-se um homem amargurado, triste, solitário e melancólico após a separação de sua mulher e o afastamento do filho. A maioria de sua atuação está em seus olhares que expressam todas estas características citadas bem como suas caras de cansaço. André Ramiro explora mais o Mathias que foi mostrado no fim do primeiro filme, trazendo agora um homem determinado, mais honesto e muito bravo, bem diferente daquele do filme anterior que era dividido, influenciável e indeciso.

Irandhir Santos é Fraga, o político honesto da história que faz de tudo para combater as milícias, além de ser casado com ex-mulher de Nascimento. Sua atuação é muito interessante em relação a Wagner Moura, já que seus personagens se odeiam, mas no desenrolar do filme eles desenvolvem um respeito mútuo.

Milhem Cortaz continua com as mesmas características do policial corrupto Fábio, só que agora muito mais angustiado por saber que está fazendo errado em entrar no esquema das milícias. As grandes atuações ficam por conta mesmo de André Mattos e Sandro Rocha, respectivamente, o deputado hipócrita Fortunato e o antagonista da trama, o Major Rocha.

Mattos cria o personagem mais caricato e demagogo da história em si, que já envolve diversos políticos. Fortunato possui um programa do tipo “Brasil Urgente” onde manda mensagens para o governador, falando o que o povo quer ouvir: “Senta o DEDO!!!!”; Sabe o que é isso Governador? Passos largos.”; “A coisa vai federrrrr e federrrrr com todos os errrrrrrrrres.”. Nestas cenas é onde sua atuação torna-se brilhante expondo toda a sua comicidade para o público.  Também é interessante apontar sua hipocrisia quando está diante das câmeras e do palanque e quando está no samba com a quadrilha da milícia. Já Rocha faz um personagem cruel, frio, destemido e calculista. Ele é o “vilão” da trama, passa de policial corrupto para o líder da milícia, matando tudo e a todos que se puserem em seu caminho.

A fotografia evidencia a fase de solidão que Nascimento passa com seu apartamento sombrio. Também deixa claro como o BOPE cresceu com planos aéreos, como na parte que eles invadem uma favela para procurar armas. Uma característica que é importada do outro filme é a “câmera nervosa”, aquela que treme um pouco sem tirar os atores do centro do plano, ela serve para aumentar a tensão e criar suspense. Em várias partes do filme, este tipo de filmagem contracena com o efeito sonoro da palpitação do coração, que é usada sem exageros, mantendo um ritmo bom.

Para ver a direção de Padilha no filme, é preciso analisá-la pelos dois filmes. Repare que no primeiro o ritmo era muito mais acelerado, tinha mais violência, mais bordões, mais ação, acompanhando a fase que Nascimento se encontrava. Já nesse, existe uma desconstrução e amadurecimento do personagem de Nascimento, ele sai do meio do tiroteio e vai acabar atrás de uma mesa. Ele começa a ver que tudo aquilo que ele lutava não fazia sentido, que só recebia ordens e as executava. Agora é ele quem dá as ordens, finalmente vê todo o esquema e descobre as milícias.

Levando o filme a um tom mais sério, mais crítico, mais político, exigindo mais diálogos e menos balas, Padilha acertou em cheio nessa escolha, que acabou me surpreendendo. Eu esperava ir ao cinema e assistir apenas uma continuação superficial, ver Nascimento correr atrás do traficante Mineiro ao invés do Baiano, bater na cara de estudantes para perguntar quem estava com a carga, dar murros na geladeira, etc.

É interessante ver a reação do público na cena em que Nascimento da uns coices na cara de um “querido”. Todos na sala riem e aplaudem, inclusive eu. Isso deixa claro a nossa indignação, insatisfação e raiva com a situação interna, não só de Segurança Pública, mas como de Educação, de Saúde e de oportunidades que nosso País se encontra. Para mim, naquela cena Nascimento era o Brasil apresentando os punhos, com ódio, para seus governantes. Infelizmente, assim que a cena acaba a falsa sensação de que a justiça está sendo servida vai embora, nos puxando de volta para a realidade.

“Tropa de Elite 2” é um tapa na cara desta nossa sociedade hipócrita, que finge que não sabe da violência que acontece todos os dias nas ruas de nossas cidades. Também é um soco no estômago para vários de nossos políticos, igualmente falsos, que lucram em cima do terror de pessoas inocentes. O filme evidencia isso na narração final de Nascimento com uma bela fotografia em Brasília de nossa bandeira, flácida e caída, sem um sopro de esperança, sustentada por uma haste de mentiras e promessas que nossos governantes construíram ao longo de vários anos inúteis de seus mandatos passageiros. Eles, realmente, deveriam pedir para sair!

NOTA: 4.5/5.0

Confira o trailer do filme:


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Publicado em Críticas por Matheus Fragata. Marque Link Permanente.

Sobre Matheus Fragata

Formado em cinema pela UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar

Uma resposta em “Crítica: “Tropa de Elite 2”

  1. Matheus, se mata.
    Você escreve muito bem, vai trabalhar com isso?

    Não tenho o que falar, ou comentar, nem sobre sua critica, nem sobre você.

    Não sabia desse seu dom pra escrever, fico feliz em saber que conheci alguém com um bom gosto, para filmes e tudo mais.

    Parabéns. Mesmo.

    Curtir

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