Crítica: “The Runaways”

The Runaways – Garotas do Rock (The Runaways)

A cinebiografia da banda “The Runaways”, ironicamente, fala mais de Cherie Currie e Joan Jett do que da própria banda.

Joan vive nas ruas com uma amiga e Cherie sofre em casa com um pai alcoólatra e uma mãe controladora. Os destinos das duas se encontram quando Joan convence Kim Fowley, famoso produtor musical, a ajudar a criar uma banda só de garotas, uma coisa inédita até então. Ele aceita e começam a recrutar meninas para a banda formando as The Runaways que era composta por Joan Jett, Lita Ford, Sandy West e Jackie Fox (que no filme é conhecida como Robin). Até que Fowley descobre Cherie e a chama imediatamente para fazer o vocal da banda graças a sua personalidade única.

A trilha sonora do filme é soberba, certamente é um prato cheio para os fãs da banda dos anos 70. Surpreendentemente, a trilha não conta só com músicas da banda, ela também possui David Bowie, Nick Gilder, Suzi Quatro e Sex Pistols.

A caracterização das personagens está praticamente perfeita, nos aspectos visuais. Inclusive a maquiagem, o figurino (que conta com a lendária jaqueta de couro de Joan) e os penteados.

Já as atuações não estão lá a todos os elogios. Todas fizeram um trabalho bem feito, só que é praticamente impossível tornar convincente Fanning e Stewart como drogadas e roqueiras sem lembrar-se da menina que tinha medo de ETs em Guerra dos Mundos e a garota do triângulo amoroso vindo diretamente das “fábulas” da série Crepúsculo. Às vezes, Stewart faz uma Joan extremamente sensibilizada e feminina, muito diferente da que foi apresentada no início da projeção. Dakota está ótima como sempre, porém a insistência de alguns aspectos de sua personagem acaba tornando sua atuação desgastante.

Quem realmente fica como destaque em sua atuação é Michael Shannow que interpreta Kim Fowley. Ele realmente incorpora o produtor de uma forma totalmente alucinada e caricata, deixando o filme mais agradável e cômico para os que não são fãs da banda.

A direção de Floria Sigismondi (diretora de videoclipes) não foge dos lugares comuns deste tipo de filme, ou seja, ela põe as famosas manchetes voadoras de jornal na cara do público, as drogas e alcoolismo representados em excesso, o lesbianismo, a inocência perdida, etc. Além de tudo isto, ela insiste evidenciar que Cherie, com apenas 15 anos, drogada e bêbada, mal consegue andar com os sapatos plataforma famosos naquela época. Isso pode até ser uma sacada legal, mas depois que você isso pela décima vez no mesmo filme acaba se tornando um porre.

O roteiro, que é adaptado do livro de Cherie “Neon Angel: A Memoir Of The Runaways”, não dá ênfase na história da banda, mas sim nas duas personalidades da banda: Cherie e Joan. Ele pula boa parte da evolução do sucesso das meninas. Por exemplo, o primeiro show da banda é em uma festa de adolescentes e, logo depois da festa Fowley liga e as avisa que irão fazer uma turnê nos EUA. Depois de um show, elas logo fazem um tremendo sucesso e são convidadas a fazer uma turnê mundial, onde nos apresenta a banda no Japão, e logo depois disto, o rompimento da banda, que é feito de forma muito inconvincente, parecendo que o motivo do desmembramento da banda foi causa de um simples chilique de Cherie incitado por Lita, que no filme é constantemente representada como a chata, reclamona e ciumenta do grupo.

Apesar desta correria e o sucesso imediato que o roteiro impõe ao público, ele evidencia o grande preconceito que se tinha em torno das mulheres, principalmente ao preconceito que a banda teve que superar enquanto não fazia sucesso.

A fotografia do filme acompanha a direção de videoclipe de Sigismondi e, na parte dos shows, a câmera geralmente roda a banda num 360º com uma iluminação específica para cada um. Por exemplo, no show do Japão a iluminação fica em um vermelho fosco com closes em Dakota para expressar a sua sensualidade e a de seu traje histórico. Nas partes que são fora dos shows, torna-se genérica, com o uso clichê da “câmera nervosa” para dar um enfoque maior nas brigas da banda e nas crises de existencialismo de Cherie e da “câmera drogada”, aquela que desfoca o fundo e deixa o personagem focado e desfocado num ritmo sucessivo, que também é usada sem inovações.

“The Runaways” certamente é um prato cheio para os fãs da banda que estão curiosos para saber mais da história delas, é ótimo escutar e ver Cherry Bomb sendo composta por Fowley e Jett –  este é um dos pontos altos do filme! Para os que estão curiosos e desconhecem a banda, eu também indico. É sempre bom conhecer ou reviver a época alucinada dos anos 70.

Uma banda que mudou a história do rock como “The Runaways” deveria ter tido um filme melhor devido tamanha a sua importância. Ele poderia ter tido mais detalhes e mais enfoque nas outras integrantes da banda, não somente em Cherie e Joan. Enfim, poderia ter sido um filme bem melhor do que esse. “The Runaways” revolucionou a maneira que o rock era visto e executado nos anos 70. A meu ver,  pelo menos o filme deveria ser igualmente revolucionário, fugindo dos clichês hollywoodianos, o que infelizmente não aconteceu neste caso.

NOTA: 3.0/5.0

Obs.: para aqueles que estão interessados em ver um filme criativo, original e dramático sobre adolescentes drogadas, perdidas, com dramas familiares e lésbicas indico “Aos Treze” com Evan Rachel Wood e Holly Hunter. Este sim é um filme bom, além de ser inovador.

Confira o trailer do filme:


Publicado em Críticas por Matheus Fragata. Marque Link Permanente.

Sobre Matheus Fragata

Formado em cinema pela UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar

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