Crítica: “Demônio”

Demônio (Devil)

Você já ficou preso no elevador? Bom, se a resposta for sim você já sabe que é uma experiência bem apavorante. Agora imagine que você ficou preso com mais alguém. Um pouco mais reconfortante agora, não? Porém este “alguém” é o tinhoso em pessoa e ele quer te levar para um fazer tour no inferno em uma viagem só de ida.

Logo no início o roteiro de Shyamalan nos apresenta a fábula do dia que o demônio vem a Terra matar alguns seres… humanos no caso. Este é o dia que tudo dá errado, em especial para cinco pessoas da pior espécie que por algum “acidente” acabam presas em um elevador de um prédio lustroso. Acontece que uma dessas pessoas é o capeta e ele está determinado a levar todos os outros consigo para o inferno, isto enquanto acontece um pandemônio na segurança do prédio para arrancar os pobres coitados que estão presos no elevador onde até mesmo a polícia e os bombeiros tem que intervir.

A idéia do filme é bem simples, Shyamalan não teve que pensar muito para arquitetar uma história interessante, mas não é um filme que vai adicionar muita coisa na mente de quem assiste. Os méritos do roteiro (que talvez provenham do experiente Brian Nelson) estão contidos em sua maioria na simbologia que envolve vários números que aparecem durante o filme. Por exemplo, o elevador que empacou foi o de nº6. Além disso, ele conseguiu fazer quase todos os personagens carismáticos e interessantes, tirando o “super crente” Ramirez (bela criatividade, hein, Shyamalan; Mais um Ramirez entre os 1872990 que já existem na indústria cinematográfica). O desenvolvimento da desconfiança e paranóia de cada um que está no elevador para descobrir quem é o assassino é muito bem trabalhada. Também temos inúmeras frases de efeito como “This girl is a twist!” o que pode ser bom ou ruim dependendo da opinião do espectador.

Porém apesar destes “inúmeros” pontos positivos o roteiro tem seus deslizes sendo o maior deles não fornecer praticamente nenhum tipo de pista para o público de quem é o demônio no elevador. Com certeza, isto ajuda a manter o suspense no filme, porém diminui a interatividade do espectador com a história que acaba ficando cíclica (quando as luzes apagam o demônio se diverte). Graças a essa repetição sem fim na projeção do filme ele se torna maçante em algumas partes. Além disto, temos momentos shyamalescos de ser no meio do roteiro, como quando Ramirez tenta evidenciar que o capeta está agindo naquele dia (o dia que tudo dá errado segundo ele). Para provar isso ele pega um pão com geléia e o joga. Claro que a face com geléia espatifou no chão e é por isso que o demônio está lá, simplesmente por causa de uma porcaria de pão com geléia. Depois desta você imagina que não exista mais nenhum momento ridículo como este no filme, certo? Errado! Aparentemente os minions (“servos/ajudantes”) do tinhoso são bichinhos como guaxinins ou pombas, ou seja, o demo é a Branca de Neve. Aliás, este filme conta com poucos sustos. Então não espere pular da cadeira em algum momento.

A fotografia inova logo no início da projeção.Temos uma longa seqüência onde a imagem aparece de cabeça para baixo. Pode até dar um efeito legal, criativo e simbólico no caso, porém pode causar um tremendo desconforto para algumas pessoas. Mas nem tudo é perfeito, nas cenas que acompanhamos os presos no elevador não conseguimos ter aquela sensação claustrofóbica sendo a única vez que ela consegue passar esta impressão é devido à atuação competente de Bokeem Woodbine. Ela também sofre com os constantes close-ups na cara de todos os personagens, mesmo aqueles que não estão presos no elevador. Outra coisa que pode ser ruim e boa ao mesmo tempo são as partes que o demônio age. Nessas horas a tela fica completamente negra ficando possível somente ouvir os gritos de horror, isso ajuda a aumentar a curiosidade para saber quem morreu, porém não permite a descoberta do tinhoso colocando as mãos na massa.

A música é de ótima qualidade só que ela não combina com o filme, diversas vezes eu pensei estar assistindo um filme de super-herói do tipo Homem-Aranha, graças ao ritmo frenético dos trombones e violinos. Acompanhando a música, temos os efeitos sonoros que em si são muito bons existem até barulhos de preces das almas que estão no calço do diabo, fora os barulhos indescritíveis da respiração das traquéias semi-mutiladas e das partes escuras do filme.

Os destaques de atuação ficam para os cinco que estão presos no elevador (a química entre eles é ótima), os outros são personagens bem insossos como o detetive cético que acompanha o caso ou os guardinhas do prédio. O quinteto constituído de Jenny O’ Hara, Bojana Navakovic, Bokeem Woodbine, Geoffrey Arend e Logan Marshall-Green é incrível. O psicológico de seus personagens ficou espetacular em especial, todo o pavor e desconfiança que seus personagens passam ficaram muito bem trabalhados nas interações e relações que um tem com o outro. Geoffrey Arend, que interpreta o vendedor, pegou os poucos minutos de participação e os tornou os melhores do filme graças a sua comicidade.

A direção de John Erick Dowdle manteve um ritmo bem melhor do que os de Shyamalan em outros filmes como “Fim dos Tempos”. Sua edição precisa deixou o filme dinâmico, apesar deste ciclo sem fim que o roteiro constrói (elevador, gabinete do segurança, reflexão óbvia do Zé Detetive, elevador novamente, bombeiro ou mecânico tentando tirá-los do elevador, elevador sem luzes, matança do capeta). Seu trabalho com os atores também foi espetacular.

Shyamalan conseguiu realizar um trabalho bom após vários anos de projetos ruins. Espero que ele continue escrevendo roteiros porque sua direção já está desgastada, talvez com um período fora da cadeira de direção, ele tenha algumas boas idéias que possam alavancar novamente sua carreira.

“Demônio” é um filme de terror que vai acabar sendo esquecido nas prateleiras das locadoras. A idéia foi boa, mas a execução foi mediana, ganhando destaque em suas atuações competentes. Ele cumpre o que promete, bom, pelo menos para mim as escadarias voltaram a ser a opção número um para chegar a casa, apesar de elas serem tão escuras…

NOTA: 3.5/5.0

Confira o trailer:


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Publicado em Críticas por Matheus Fragata. Marque Link Permanente.

Sobre Matheus Fragata

Formado em cinema pela UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar

10 respostas em “Crítica: “Demônio”

    • Bom editando o comentário aqui, a crítica já está pronta e saíra da correção em poucos minutos. Ouviu senhor Raphael?!
      Agradeço pelo comentário amoroso pela crítica…. (y) huahuahua.

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  1. Eu concordo que o filme teve uma boa idéia, mas achei a realização bem ruim. Não tive o menor medo quando as luzes se apagavam, e o maximo que eu pensava era “quem vai apareçer morto agora?”. As personalidades dos personagens não são muito exploradas, apesar de algumas tentativas. E, como voce citou, o Ramires é o ponto alto do ridiculo do filme. Sua solução para a trama também não é boa, mas não vou falar para evitar spoilers aqui.
    A verdade é que o filme não consegue explorar a boa idéia, e acaba tornando-se um filme previsível, repetitivo e até mesmo exagerado. Mesmo a fotografia, que começa o filme com um efeito bom, cai no lugar-comum que ja estamos cansados.

    Boa crítica! O site ta bem legal!

    flws velho, abraço.

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  2. Ótimo blog e ótimo texto. Sobre Demônio, compartilho da mesma opinião. O funcionamento do filme fica por conta da tensão existente no elevador, já que fora dele nada parece funcionar. E a cena do pão com geléia foi extremamente vergonhosa, quase desisti nessa parte. Tirando essas cenas dramáticas e crentes com o Ramirez e o detetive, se Shyamalan começar a fazer filmes do nível de Demônio, vai ser uma das maiores subidas na carreira dele.
    Abraços, te linkei ao meu blog (:

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    • Obrigado pelos elogios =)
      O seu texto também ficou muito bom (xenofobia em filme de terror, também tinha pensado nisso hahaha), fiquei surpreso que você tenha gostado de “Demônio” visto que muitas pessoas odiaram o pobre diabo.
      Concordo com você, Shyamalan tem que esfriar a cabeça e pensar em novas ideias.
      Vou linkar seu blog aqui em 2 segundos, obrigado
      Abraços

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    • É sim, Adryene. Só que filmes deste gênero seguem essa fórmula.
      É raro encontrar filmes que tratam de possessão demoníaca sem trechos da bíblia, afinal os dois estão diretamente ligados.

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