Crítica: “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos”

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger)

Será que Woody Allen impressionou mais uma vez ou seu filme começou a apresentar sinais de desgaste?

Helena acabou de divorciar-se com Alfie após muitos anos de casamento. Ela começa a procurar a ajuda de videntes salafrárias enquanto Alfie tenta afastar a velhice que o perturba tanto, seja na academia ou com namoradas bem inusitadas. Enquanto isso Sally, filha de Helena, sofre com seu casamento fracassado graças aos esforços de seu marido Roy tentar lançar um novo livro, que, por sua vez, está quase a um passo de traí-la pela vizinha da janela à frente de sua casa e que já está de casamento marcado.

O roteiro escrito por Woody continua a explorar dramas corriqueiros de personagens neuróticos com certa comicidade. Isso já virou sua marca registrada, como em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, “Manhattan” e “Tudo Pode dar Certo”. Acontece que neste caso as experiências vividas pelos personagens já foram bastante exploradas por Allen como o adultério, o trabalho, a morte, os relacionamentos de pessoas maduras com pessoas novas (isto muito tem a ver com a história de Woody, visto que ele é casado com a filha adotiva de sua ex-mulher, Mia Farrow), etc. Aqui ele teve a oportunidade de ironizar o misticismo das cartomantes sendo este um dos poucos méritos de seu roteiro.

Como sempre, todos personagens do filme estão interligados diretamente ou indiretamente, e a decisão de cada um influencia na conclusão da história de outro personagem. O roteiro sofre com personagens muito insossos, sem personalidade, desinteressantes e um pouco irritantes, tanto que o único que fiquei curioso para saber sua conclusão era o de Anthony Hopkins. As críticas de Woody se fazem presentes a respeito do modo de vida que os personagens vivem, muitos deles baseados em histórias similares na vida real, porém em uma carga muito menor que em “Tudo Pode dar Certo”, resultando em uma história maçante sem muitas piadas e ironias (essas dão as caras lá para o fim do filme). Woody não devia estar muito inspirado enquanto compunha sua obra.

A fotografia é a mesma de vários os filmes de Allen. Por exemplo: temos a câmera movimentando-se para trás acompanhando os personagens que estão andando e dialogando numa calçada exatamente igual às cenas onde Woody, Keaton e seu cachorrinho conversavam e filosofavam nas calçadas pavimentadas em “Manhattan”. Também temos a clássica mania de Woody não cortar as cenas para outros ângulos, ou seja, quando um personagem anda pelo cenário uma câmera o acompanha com uma única perspectiva sempre acompanhando seus movimentos como na cena em que Helena visita Sally e vai para a cozinha tomar um drinque enquanto dialoga com Roy. Nesta cena, em momento algum a tomada é cortada para outro ângulo da câmera, quando Roy fala a câmera vira e foca em seu personagem e vice-versa.

A música não varia ao longo da projeção, se não me engano temos um total de quatro ou cinco músicas, sendo que algumas são usadas comicamente como When You Wish Upon a Star que ironiza os contos de fada com o título do filme (o senhor “tall dark stranger” que Roy tanto fala é a Morte, que todos nos vamos conhecer querendo ou não).

As atuações, em sua maior parte, não impressionam, Banderas esforçou-se para não carregar seu sotaque espanhol só que não conseguiu. Naomi Watts e Josh Brolin sofrem com ambos personagens desinteressantes, já Gemma Jones com seu estilo de dona inglesa diverte graças à ingenuidade de sua personagem a respeito do misticismo. Ingenuidade? Quando ela decide o destino dela, nem o “pretenso” amor – e tolerância – da filha a desviam de seu foco. O destaque do filme é Anthony Hopkins. Sua atuação dispensa comentários, está sublime além de ser o melhor personagem, sua química com Lucy Punch é boa. Freida Pinto, a namorada do milionário indiano, também está muito bem no papel que marca graças a uma característica curiosa: ela só se veste de vermelho. Isso deixa uma sensualidade evidente em sua personagem visto que ela é um objeto de desejo de Roy.

A direção de Woody Allen também continua sem muitas inovações, o que não é ruim visto que ele já tem quase 75 anos de vida e muitos de experiência, ou seja, ele sabe o que faz. Algumas vezes, ele permite o ator conversar e olhar diretamente para a câmera assim como em “Tudo Pode dar Certo”. Woody valoriza muito a mise en scène (é um termo de difícil definição já que ele pode ser utilizado de várias maneiras, então vou simplificar: mise en scène se refere a tudo que aparece ante a câmera, ou seja, a iluminação, a montagem da cena, dramaticidade, movimentação dos atores e da câmera, etc.). Em seus filmes, podemos enxergar isto em alguns close-ups bem inseridos no desenvolvimento do ato, no próprio significado da vestimenta de Dia, nos já citados movimentos de câmera e entre outros. Porém, ele poderia ter exigido mais do desempenho de Naomi Watts e Josh Brolin, tanto que as cenas que eles aparecem são as mais chatas do longa.

“Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos” é um bom filme e diverte em alguns momentos, mas graças aos seus personagens com pouco carisma e história desinteressante acaba falhando. Vale à pena conferir e adquirir um pouco de conhecimento do cinema de arte de Woody Allen apesar de não estar em sua melhor performance. Assim como Roy ele entregou um filme que falta um “que” a mais de inspiração.

NOTA: 3.5/5.0

Confira o trailer abaixo:


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Publicado em Críticas por Matheus Fragata. Marque Link Permanente.

Sobre Matheus Fragata

Formado em cinema pela UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar

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