Crítica: “Megamente”

 

Megamente (Megamind)

A DreamWorks apostou alto na animação quando lançou “Shrek” nos cinemas. Ele viria a revolucionar um setor saturado e dominado pela Pixar e Disney, conseguindo até tirar o Oscar de animação de “Monstros S.A.”. Porém, conseguiu realizar algo que jamais haviam tentado antes: desconstruir os contos de fadas. E chegou a vias de fato! Agora, procura um novo caça níqueis e acertou novamente como em “Como Treinar Seu Dragão”. “Megamente” é um filme que esbanja qualidade e diverte sem fazer esforço.

Megamind teve uma infância complicada – logo com oito dias de vida seus pais o colocaram em uma cápsula para escapar de seu planeta natal que estava prestes a ser engolido por um buraco negro. Aparentemente, os pais de Metro Man no planeta vizinho tiveram a mesma idéia e os dois seguiram caminhos separados. Enquanto um vivia no luxo e no conforto o outro vivia na prisão e rigidez (seria O Príncipe e o Mendigo do século XXI?).

Após combates cotidianos entre Megamind e Metro Man, ele, finalmente, resolve destruir de uma vez por todas o herói de Metro City. Depois de conseguir realizar seu plano, descobre que agora que Metro Man se foi, não há mais sentido na sua existência – afinal o que é um bom vilão sem um herói para combatê-lo? Então, Megamind resolve criar um novo herói, Titan. Mas, cego por seu objetivo, não percebe que cometeu um grande erro porque Titan revela ser um vilão que utiliza seus poderes a fim de lucrar. Agora Megamind e Minion tem que arranjar um plano para deter Titan antes que ele destrua toda Metro City.

O roteiro inteligente de Alan J. Schoolcraft e Brent Simons é cheio de referências ao mundo dos heróis, tanto dos gibis quanto os das telonas que podem não fazer sentido para as crianças, mas certamente é um prato cheio para os pais. Temos homenagens a Marlon Brando como Jor-El em ”Superman”, a propaganda política de Obama, ao próprio Superman, as risadas megalomaníacas dos clássicos vilões (e seus gatinhos também), ao mundo dos games e até ao mestre Miyagi de “Karate Kid”. Entretanto, ele não cativa apenas por meros detalhes e, sim, pelo todo.

É um filme é rico em piadas bem elaboradas, reviravoltas e personagens únicos, caricatos, carismáticos que conseguem empolgar o espectador (Megamind consegue ser o que Gru de “Meu Malvado Favorito” não conseguiu). Fora isso, a trama é muito bem pensada e desenvolvida. As questões a respeito do que cria um herói e um vilão são bem trabalhadas, além de desconstruir o antigo conceito “bom é bom e mau é mau” fora a grande capacidade de fazer o público se apegar a seus personagens. Embora a comédia prevaleça em seu desenvolvimento, também há passagens com grandes cargas dramáticas como durante a crise de identidade de Megamind. Além de tudo isso, sempre inova nas entradas homéricas de Megamind sendo uma mais original que a outra. Mesmo assim, o filme tem seus deslizes sendo o maior deles ser bem previsível em algumas passagens.

A animação da DreamWorks está soberba. A taxa de quadros por segundo durante o filme é estável, somente em uma parte cai drasticamente (quando a câmera rotaciona em 360º no museu de Metroman). Fora a grande estabilidade da imagem, os destaques ficam por conta do movimento dos tecidos, das expressões faciais, da física da água e da chuva (inclusive nas faces dos personagens), os cabelos de Roxanne (o movimento dos cabelos ao vento é incrível), das explosões e da própria destruição de Metro City. Além disso, quase todos os cenários têm um design inspirado, criativo e original. A única coisa que não ficou satisfatória foram os efeitos dos olhos dos personagens, não dá para comparar com os olhos de Andy em “Toy Story 3”.

O trabalho das vozes é excelente. Will Ferrell é o destaque emprestando sua voz a Megamind. Ele criou um sotaque único para o cabeçudo, além de brincar diversas vezes com as nuances de sua voz. Brad Pitt assume descaradamente o posto de galã e diverte com as frases de heroísmo de Metro Man. Tina Fey também está ótima como Roxanne, sempre tirando uma com a cara de Megamind e acaba por ganhar seu mérito. Jonah Hill é o ator mais fraco do filme. O trabalho com sua voz não ficou muito bom, alem de ela ser esganiçada é chata de se ouvir. David Cross interpreta com muita competência o Minion, servo e amigo de Megamind, e também é um destaque nas ótimas atuações do filme. Ben Stiller e J.K. Simmons também marcam presença. Fica evidente que os atores se divertiram durante seu trabalho.

A fotografia é clara, com cores vivas e conta com uma ótima iluminação. As seqüências de perseguição são o ponto alto do filme. Elas, combinadas com os efeitos 3D, deram um resultado animal. Também existe uma parte que ganha uma sintonia impecável com o momento do filme tornando-se sombria, com planos distantes e terminando com um belo fade-out.

A música licenciada conta com hits de sucesso do ACDC, Ozzy Osbourne e até Michael Jackson. Já a trilha original composta pelo sempre inspirado Hans Zimmer é igualmente fantástica. Os temas que ele compôs são muito bons, principalmente a música que acompanha a parte “triste” do filme. Os efeitos sonoros também merecem ser destacados. São eles, os barulhos das explosões, do tecido raspando na roupa, dos passos na chuva, o eco do laboratório de Megamind e todos foram muito bem trabalhados entre vários outros sons.

O diretor Tom McGrath exigiu bastante de seus atores e obteve um resultado excelente, fora isso suas idéias e jogos de câmera ficaram muito bons. A sátira que ele faz com diversos filmes do gênero é original e criativa tornando sua direção bem realizada. A parceria com Guillermo Del Toro, produtor do filme, funciona perfeitamente.

“Megamente” é um filme animado que vale a pena conferir, principalmente a versão legendada para ouvir o trabalho das vozes de seus atores competentes. Ele diverte por ser simples e não querer ser mais do que isso, porém de vez em quando se torna previsível. Os anti-heróis voltaram na moda e com certeza esta não será a última vez que você verá o magrelo azul nas telonas. Ainda bem!

NOTA: 4.5/5.0

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Publicado em Críticas por Matheus Fragata. Marque Link Permanente.

Sobre Matheus Fragata

Formado em cinema pela UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar

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