Crítica: “72 Horas”

 

72 Horas (The Next Three Days)

Todos os anos filmes sobre fugas e assaltos perfeitos são produzidos na terra do cinema americano porém, é cada vez mais raro encontrar algum que seja original e empolgante que sequer tenha um mero suspense. Felizmente, não é o que acontece no caso.

John Brennan é um homem comum com um cotidiano simples, mas seu mundo desaba quando subitamente sua esposa, Lara, é presa acusada de homicídio. Agora John está determinado a tirá-la da cadeia custe o que custar planejando um plano de fuga perfeito.

Soberania do suspense

O roteiro de Paul Haggis, também diretor da obra, é muito envolvente, simplesmente por apresentar um protagonista normal que não possui super poderes ou que tenha permissão para matar. O que acontece com John poderia acontecer com qualquer um. Ele também inova em deixar explícito logo de cara que realmente Lara é culpada do crime sem criar mistérios, todavia John continua a acreditar cegamente na inocência de sua mulher. Ele desenvolve o drama que o protagonista passa de forma comovente, fria e crua assim como a realidade, provocando uma rápida afeição do público com o personagem.

O suspense se faz presente na maioria do filme, ele fica cada vez mais pesado e indigesto para o espectador graças a constante criação de conflitos e solucioná-los poucas vezes durante os atos iniciais.

Apesar de o roteiro ser arquitetado de forma única e original, ele exagera algumas vezes, o que acaba tirando a veracidade que era construída desde seu inicio. Por exemplo, John aprende umas artimanhas do submundo a partir de vídeos na internet que vão de como fazer chaves mixas a até arrombar portas de carro com bolas de tênis. Além disso, ele é um filme pesado graças ao suspense exacerbado em seu clímax, que serve para resolver todos os conflitos pendentes na trama.

E também é recheado de exageros. John que era um homem que mal sabia como disparar uma arma acaba invadindo casas e manobrando carros melhor que Jason Statham. Esse exagero pode ser levado em conta se imaginarmos que ele se viu sem saída e resolveu proteger sua família de qualquer forma.

Trabalho para dois

As atuações do filme podem ser resumidas a apenas dois atores: Russell Crowe e Elizabeth Banks. Ambos construíram personagens carismáticos com uma pesada carga dramática. Como 90% do filme o espectador acompanha Crowe, é um fato que ele carrega o filme nas costas.

Seu personagem é incrível, ele é simplesmente uma pessoa como qualquer outra só que muito azarado. Ele retrata o drama, o medo, a incerteza, a obsessão, a saudade, a melancolia e a dor de John de forma sublime, principalmente no seu olhar caído e sem brilho nos olhos de um homem que já perdeu as esperanças.

Elizabeth Banks também está de parabéns com um tempo razoável na tela, seu desempenho aposta na desconstrução de sua personagem e sua caracterização. Repare que no início ela era uma mulher bonita com poucos problemas, mas depois que entra na prisão ela vira uma presidiária relativamente feia, já sem vontade de viver, ainda tendo que lidar com a rejeição de seu filho pequeno. O elenco ainda conta com participações especiais do sempre presente Liam Neeson, da bela Olivia Wilde, do experiente Brian Dennehy e Daniel Stern.

Ordinariamente comum

A fotografia do filme não é surpreendente como a atuação de Crowe e Banks. Ela é bem genérica (provavelmente para dar a impressão de “vida real” que o filme aborda) e opta por ficar fechada em closes na cara dos personagens – como este é um filme de drama era bem óbvio que as câmeras iriam abusar das expressões faciais dos atores. Ela só fica mais aberta no clímax onde ocorrem as cenas de ação.

Para ajudar na dramaticidade, a iluminação e as cores geralmente são frias e pálidas evidenciando a dureza do momento que o personagem vive. Outro recurso utilizado diversas vezes é o plano da câmera nervosa, onde a câmera treme para condizer com a instabilidade, insegurança ou desconforto que o personagem vivencia em determinado momento da trama. Também existem alguns poucos planos bem abertos/geral para mostrar as belas paisagens onde o filme ocorre.

Elevando o desconforto

A música é assinada por Danny Elfman, famoso por compor as sempre iguais trilhas sonoras dos filmes de Tim Burton. Acontece que desta vez Elfman parece ter posto o cérebro para funcionar e entregou uma trilha bastante expressiva. Já a trilha licenciada não é tão carismática o quanto deveria ser, composta por algumas das mais maçantes músicas que tocam nas rádios em uma manhã de segunda feira.

A direção de cada dia

Paul Haggis é mestre no tema que seus filmes abordam. Dramas pesados com pinceladas de veracidade onde as escolhas dos personagens acabam influenciando no destino de terceiros.

Em seus filmes tudo tem uma relação de causa e efeito, sendo que o efeito resulta em outra causa. Ele já ganhou um Oscar em 2004 pela direção de “Crash – No Limite”. Agora em “72 Horas” suas características ainda estão bem visíveis apesar da longa pausa na cadeira de diretor.

Uma de suas sacadas é remover a música em algumas cenas onde o suspense prevalece para aumentar a tensão do espectador. Nas cenas que ocorrem na prisão, a edição fica frenética, a cena literalmente é mutilada pelos múltiplos cortes que contextualizam o aparente nervosismo de John.

Ele também opta por acompanhar a fuga de John e Elizabeth do início até o fim, onde o espectador pode sentir um desconforto já que o filme aparenta acabar em qualquer instante, mas não acaba. Quando o filme finalmente termina, o espectador fica angustiado, pelo menos aqueles que ficaram completamente imersos na trama assim como eu.

Nos próximos três dias devo ir ao cinema?

Definitivamente sim. “72 Horas” é um filme surpreendente. Particularmente, eu não esperava nada dele. As atuações de Crowe e Banks valem cada centavo do ingresso e a direção de Haggis voltou a todo a vapor.

Se não fossem esses problemas em transformar John em um agente 00 para solucionar as enrascadas da estilosa escapada cheia de “olés” nos policiais, o filme não perderia sua carga realística e seria excelente.

Caso você sinta um desconforto muito grande e não agüente o suspense e o drama pesado do filme, elabore um plano de fuga perfeito para a sala mais próxima do cinema.

NOTA: 3.5/5.0

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Publicado em Críticas por Matheus Fragata. Marque Link Permanente.

Sobre Matheus Fragata

Formado em cinema pela UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar

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