Crítica: “Um Lugar Qualquer”

Um Lugar Qualquer (Somewhere)

Por Raphael Nogueira

Luxo, prazer, mulheres e dinheiro, fazem parte de um sonho que muitas pessoas compartilham, mas que são normais para Johnny Marco (Stephen Dorff), um ator de sucesso que já não sabe mais o que fazer com tanto “poder”. É durante sua estadia em um hotel luxuoso e entre alguns maçantes compromissos que ele começa a conviver com sua filha Cleo (Elle Fanning), fato que muda seu modo de viver e ver o mundo a que pertence, acompanhado de crises de existência.

Retrato fiel

Estas duas palavras definem muito bem o filme, uma vez que este é para os leigos, um retrato fiel do modo de vida de um rico desocupado. Mais do que um simples retrato, “ Somewhere” é quase uma desmistificação do sonho de várias pessoas, capaz até de nos fazer refletir se é isso mesmo o que queremos para a nossa vida. “Um dia eu terei uma Ferrari igual aquela”. Será que vale a pena? Apesar de o filme insistir em mostrar a linda Ferrari 458 preta de Johnny, ele diria (pelo menos no final do filme) que a resposta é não. Isso porque após o convívio com sua filha de 11 anos, a mensagem “dê valor às pequenas coisas” está quase escrita na cara de Dorff.

O ócio constante

A direção e o roteiro do filme foram ambos realizados por Sofia Coppola, assim como em outros filmes seus, como Encontros e Desencontros e Maria Antonieta. Mas o que chamamos de maçante em outros títulos seus, acabou casando muito bem com o roteiro desse aqui. O clima calmo vai se consolidando ao longo do filme e acalmando o espectador junto, seja através de longas cenas que mostram Johnny sem fazer nada, usando uma aproximação do rosto do ator bem lenta, ou até nas cenas em que os personagens estão no carro. E são apenas nessas cenas de estrada que há alguma inovação no modo de operar a câmera e/ou nos ângulos utilizados. Isso porque se utiliza uma câmera “gamer”, aquela em que a visão é a partir do painel do carro, ou acompanhando o mesmo na estrada, na mesa velocidade. É o que podemos chamar de uma ociosidade proposital, durante o filme inteiro. Pena que algumas vezes, visando criar esse clima calmo, as cenas tenham ficado demasiado longas demais, criando no espectador uma inquietação e uma vontade de continuar vendo o que realmente interessa: a história em si.

O roteiro não deve ter sido difícil de fazer, os poucos conflitos mostrados são simples e já apareceram em outros filmes. Não é um filme que ver cronologicamente ou fora de ordem faz diferença, a história é dividida em momentos em que Johnny está sozinho e aqueles em que está com sua filha. As falas são poucas, mas naturais, dão um ar real ao filme. Além disso, apesar da ausência de grandes diálogos e discussões, os personagens acabam sendo bem explorados. Mas isso não seria possível sem ajuda das atuações.

Natural

Todos os atores escalados para a produção do longa foram boas escolhas. Stephen Dorff conseguiu realmente passar a imagem de um rico famoso e ocioso, que procura se divertir dando voltas de carro, com shows eróticos particulares ou aproveitando as oportunidades para ir a todas as festas possíveis. Ele entrou no personagem meio junkie, que quebra o braço caindo da escada porque está bêbado e tira o gesso na marra. Créditos para a pequena Ellen Fanning, que assim como sua irmã Dakota Fanning em outros filmes, desempenhou muito bem seu papel de filha de pais ausentes, que precisou aprender a cozinhar, e que é em partes adulta, em partes criança.  Já Chris Pontius mais parecia estar na folga de alguma das loucuras de Jackass. Pouco se pode falar dele, que aparece uma hora ou outra como aquele amigo fiel que desencoraja você como astro do rock, quando está jogando Guitar Hero. Mas para todos os efeitos, ele atuou bem.

Na hora H

A trilha sonora do filme foi realmente escolhida a dedo, na maior parte do tempo as músicas são utilizadas como parte da cena, como se os personagens estivessem ouvindo-as. Os poucos momentos em que as músicas ficam alheias aos personagens foram em momentos específicos, um deles que pode até ser chamado de clímax da história, usando a música da banda The Strokes que aparece no trailer também.

Miscelânea

Somewhere é um filme que vale a pena ser conferido, tem um pouco do gosto de todo mundo: há momentos de risada, Drama, Cult etc. Tudo isso unido a uma reflexão sobre uma classe social e sua futilidade. As poucas falhas, como as mensagens de celular que ele recebe que não fica explicado o porquê, ou a citação à saga Crepúsculo, não interferem em nada na diversão do espectador ao ver o filme. Depois de ver, você provavelmente sairá da sala de cinema bem Zen, pensando na vida.

NOTA: 3.5/5.0

“Uma outra opinião” por Amanda Araujo

O filme conta a história de um famoso ator que vive suas farras de celebridade, ao mesmo tempo em que tem que lidar com a responsabilidade de ser pai. Dirigido por Sofia Coppola, é um reflexo da maturidade e excentricidade da diretora.

 – Conflito

            Enquanto assistia, percebi que a vida inteira do herói, Johnny Marco, é a causa do conflito. O personagem principal leva uma vida vazia e fútil – o que é passado para o espectador com facilidade – até que percebe que é de fato infeliz e que o ritmo em que ele vive prejudica não só a ele, mas também a sua filha Cleo, principalmente depois que ele é forçado a largá-la num acampamento, já que a mãe precisa de “um tempo”.

– Contra Elipses

            Sofia Coppola acertou quando optou pela longa duração dos planos.  Nós podemos acompanhar quase a vida inteira de Johnny. É como se ela simplismente tivesse dito para o fotógrafo : “ Aperta o REC e deixa rolar ”. Assim o espectador tem uma sensação ainda mais forte da artificialidade da vida do ator.

Publicado em Críticas por Matheus Fragata. Marque Link Permanente.

Sobre Matheus Fragata

Formado em cinema pela UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar

3 respostas em “Crítica: “Um Lugar Qualquer”

  1. Eu entendi que a citação de “Crepúsculo” foi meio que pra mostrar que a Cleo dele também tem sua parte fútil.. sei lá.

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  2. Eu ri na citação de twilight.. LOL.. Vi um coméntário da Sophia em que ela dizia que todo esse silêncio e lentidão era de propósito pq alguns filmes subestimam muito a nossa habilidade de compreender sem muita explicação, afinal na vida vida real as pessoas não falam o tempo todo o que estão pensando… gostei muito do filme, e acho que foi uma boa idéia ter visto sozinha, é um filme bem tranquilo, diferente de As Virgens Suicidas, que POR FALAR nisso é o melhor filme que ela dirigiu.

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