Crítica: “O Vencedor”

O Vencedor (The Fighter)

O boxe é um esporte muito antigo – não se sabe a época correta que ele surgiu. Só foi considerado um esporte olímpico legítimo nas Olimpíadas de 1904. Marcado muitas vezes por ser um esporte corrupto e sujo, o boxe sempre foi alvo de adaptações cinematográficas sobre suas personalidades. Desta vez, o alvo das câmeras é o lutador Micky Ward conhecido por lutar contra Arturo Gatti três vezes, ganhando apenas uma.

Micky Ward é uma promessa em ascensão do boxe. Passa seus dias treinando com seu meio-irmão, Dicky Eklund, um lutador aposentado e viciado em crack. Com a paciência acabando cada vez mais graças aos problemas com drogas e policiais de Dicky, resolve seguir a carreira por conta própria, após seu irmão ser preso e receber a oportunidade de competir pelo título mundial de peso meio-médio.

Muito além de socos e nocautes

O roteiro de Scott Silver e Paul Tamasy não acompanha desde o inicio a carreira de Micky. Já começa com o documentário sobre vicio de crack na vida de Dicky e com as três derrotas seguidas de Micky. Ao contrário do que muitos pensam, ele não é um drama descarado arrancador de lágrimas. A divisão entre os momentos tocantes e os cômicos é praticamente perfeita sendo impossível sair da sala sem dar umas boas risadas.

O conflito principal segue seu rumo e não desperta muito interesse do espectador. Afinal, o próprio título do filme já mostra que ele vence a luta da disputa. Entretanto, os conflitos secundários são os mais instigantes e imprevisíveis. Por exemplo, a relação abusiva da família de Micky com ele, sua falta de confiança e autoestima graças às constantes derrotas, o vício e a superação de Dicky em relação ao crack, entre vários outros, faz com que o roteiro ganhe seu mérito. Aliás, o vicio é o elemento mais importante do filme, não só o do crack, mas sim o da família e do passado – Dicky sempre comenta de ser o “Orgulho de Lowell” e de sua luta contra Sugar Ray Leonard nos tempos de glória.

Geralmente, a solução dos conflitos é satisfatória e bem humana, visto que o filme é baseado em personagens e fatos reais. Apenas uma conclusão a respeito do divórcio e o destino da filha de Micky são deixados de lado. Talvez a maior falha do roteiro fosse ter escolhido Micky Ward para ser o protagonista ao invés de Dicky, visto que o pugilista é um personagem bem desinteressante, passivo e monótono.

O patinho feio

Mark Wahlberg fez de tudo para que esse filme acontecesse, além de produzir o filme, encarnou o papel principal. O maior mérito de Mark foi seu longo preparo físico para encaixar no personagem, já em sua atuação não existem muitos elogios a fazer. Na maior parte do filme, ele atua completamente sem carisma, sempre franzindo a testa com uma cara de aparente preocupação. Fora isso, não desenvolve a autoconfiança de Ward ao longo do filme sempre parecendo covarde, desacreditado, usado e passivo sobre seu destino. Se não fosse seu par romântico, Amy Adams, ele tomaria o posto de ator mais medíocre do filme. Eu discordo totalmente de sua indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante. Sua atuação resume-se a ficar emburrada e inflexível na maioria das cenas, causando certa antipatia com a moça.

Após não impressionar em “O Cavaleiro das Trevas” e “Terminator Salvation”, Christian Bale rouba a cena e talvez o Oscar de melhor ator coadjuvante. Sem dúvida, o melhor personagem é o dele, graças a sua atuação espontânea e competente. Incrivelmente magro e um tanto careca, Bale consegue fazer várias caretas realmente dando a impressão de um cara completamente pirado por causa do vício do crack. Energético do inicio ao fim da projeção, o ator alegra a o público com as babaquices que faz e, ao mesmo tempo, consegue emocionar nas cenas com maior carga dramática.

Melissa Leo ao contrário de sua concorrente no Oscar, Amy Adams, sabe o que realmente é fazer uma antagonista invisível e entregar uma atuação formidável. Com seu papel de agente de Micky e matriarca da família Ward, conquista o público com seus chiliques, sua cegueira a respeito de si mesma – consome os outros com o seu “amor” sem perceber, apesar de querer o melhor de seus filhos e a ajuda de sua prole nas cenas. As filhas de Alice, personagem de Melissa, são um espetáculo a parte do filme – todas tem um sotaque único, uma brutalidade em seus gestos, descabeladas e um aspecto grotesco graças ao constante trabalho pesado.

Entrando no ringue

Sabendo que o filme tinha que ser um retrato da realidade, Hoyte Von Hoytema, diretor de fotografia de “Deixe Ela Entrar” faz um trabalho inteligente. No aspecto de iluminação, não há muito a dizer, mas sim sobre a movimentação da câmera que dificilmente para por um instante. Logo na abertura do filme, existe um plano brilhante feito por um carro cinematográfico e as imagens ficam cada vez melhores nos treinos de Micky no ginásio e nas lutas de boxe. Para não deixar o parágrafo vago, darei um exemplo de uma movimentação. Em uma das várias cenas no ginásio a câmera rotaciona o ringue em um travelling de 360º e, para aproximar a imagem discretamente, existe um pilar que aparece escondendo a cena de tempos em tempos. O plano parece bem distante de Wahlberg no inicio, mas no final a imagem já está dentro do ringue acompanhando o ator.

A direção de arte também é formidável. As reproduções dos cenários da prisão, da casa onde Dicky visita para se drogar, os cassinos onde Micky luta e a casa da família Ward são muito bem trabalhadas.

Salva por um detalhe

A música original composta pelo “brilhante” Michael Brook é irrelevante o filme todo. É quase impossível distinguir uma da outra graças à semelhança doentia e também pela péssima qualidade musical que possuem. Por algum milagre, as músicas licenciadas conseguiram salvar o filme. Todas elas contextualizam a cena e ajudam a energizar o espectador no meio das porradas. Ela conta com Led Zeppelin, Bee Gees, Red Hot Chilli Peppers, Aerosmith, Rolling Stones, Ben Harper e vários outros.

Com ajuda tudo fica fácil

Darren Aranofsky, o diretor perturbado de “Cisne Negro”, ajuda na produção do filme e é perceptível cada cena em que ele participa. Um exemplo disso está na cena onde acontece a confusão com os policiais e a difícil perda do vício de Dicky na prisão.

Quem dirige é David O. Russell conhecido pelo filme “Os Três Reis”. Sua direção deixou o filme leve, sem todo aquele melodrama que todos conhecem. Sua edição também é dinâmica é deixa o filme fluir naturalmente. Ele gosta de aproximar a câmera nos rostos dos personagens quando necessário para elevar o drama e garantir um lance físico entre o ator e o público. Fora isso, adiciona um filtro televisivo e alguns slow motions nas cenas das lutas de Micky a fim de deixar o filme com um tom original, visto que já foi amplamente explorado. Além do mais, conseguiu um resultado excelente com os coadjuvantes, mas desapontou com o pobre Wahlberg. Ele também foge dos clichês a respeito do tema – treinar como um touro e ganhar a luta e a mocinha “Adrian”, vide Rocky Balboa, tornando o filme completamente único.

Você sairá ganhando

“O Vencedor” é um filme inédito de boxe que foge de todos os padrões. Confira sem medo este concorrente ao Oscar e se deixe levar pelo seu ritmo energético e emocionante. E, claro, se encante com a atuação magnífica dos coadjuvantes que valem seu ingresso. Mas lembre-se que ele ocasiona alguns efeitos colaterais no espectador, é bem possível que você saia do cinema perambulando querendo desferir alguns jabs e uppercuts no queixo de alguém.

NOTA: 4.0/5.0

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Publicado em Críticas por Matheus Fragata. Marque Link Permanente.

Sobre Matheus Fragata

Formado em cinema pela UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar

5 respostas em “Crítica: “O Vencedor”

  1. Caramba, e eu achei que sem a atuação contida do Mark Wahlberg nenhuma das outras funcionaria tão bem. Na verdade, esse é um filme marcado pelas atuações, de todos. Sem esquecer do Russel, que fez um excelente trabalho.

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  2. Acho o filme satisfatório, mais pelas densas atuações, principalmente de Bale que é a pérola do filme, convenhamos. Melissa Leo está excelente, mas não desmereço Amy Adams e, sinceramente, qualquer uma das duas que vencer no Oscar será justo, não?

    Só pela cena do “I started a joke”, entendemos o porquê de Bale e Leo levarem todos os prêmios, até agora.

    Só me incomodou um pouco o tom cômico e esteriotipado das irmãs de Bale e Wahlberg no filme. Ficou muito “familia dó ré mi trash”.

    abs

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    • Certamente a família Ward é a principal graça do filme hahaha. Olhe, meu problema com Amy Adams já é antigo, muito antigo. Desde “Encantada” tenho problemas sérios com essa mulher. Aposto que se ela me conhecesse teriamos aversão mútua hahaha.

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  3. Bom, Matheus. Discordamos de muitas coisas. :)
    Talvez eu seja o único a acreditar no personagem e na atuação de Mark Walbergh em O Vencedor, e não me envergonho disso. Ter receios, ser passivo diante de opressões, não ter determinismo nas decisões, isso não faz de Micky Ward desinteressante: pelo contrário, faz dele humano.
    Bale está excelente aqui, mas seu personagem traz tudo à superfície, é óbvio demais, pedante, às vezes. E o mesmo vale para a mãe, de Melissa Leo. Acho Adams exagerada como toda garota voluntariosa, e isso é um ponto pra ela – prefiro-a a Leo, se tivesse que escolher.
    Acho que David O. Russel poderia ter filmado um pouco mais á distância, isto é, deixar o melodrama mais de lado. Ele aposta demais nas dores de todos, como já esperava, e o roteiro, no fim, faz “pluft” e toda a desgraça se reverte em vitória. Achei rápido. Rápido demais.
    Enfim, um bom filme, sim. Mas repetitivo. Uma boa direção, sim. Mas óbvia. Agora, os quatro atores… Todos soberbos.
    Abraço!!

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    • O problema é que Mark Wahlberg ficou humano demais, e para mim soou muito inconvicente ele decidir tomar as redéas de sua vida naquele instante, sendo que o filme inteiro ele era passivo de tudo e todos.
      Russel quis evidenciar para a câmera que Bale pode fazer tantas caretas quanto Jack Nicholson XD, mas não achei a proximidade dos planos desconfortável, para mim deu um lance mais físico ao filme inserindo o espectador naquela atmosfera pesada da família Ward.
      Espero que você não fique ofendido se eu lincar seu blog ao meu…
      Abraços

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