Crítica: “Bravura Indômita”

Bravura Indomita (True Grit)

A partir do século XIX, junto com a iniciativa governamental de Thomas Jefferson, o tão chamado “velho oeste” foi o palco da expansão da fronteira dos EUA, local onde ocorreu o maior genocídio indígena da história. Visando o lucro, assim como zumbis, fantasmas e super-heróis, os cowboys não demoraram muito para serem endeusados pelo sensacionalismo do cinema, em especial, o de Hollywood. Após muitos filmes western spaguetti, especialidade de Clint Eastwood, os irmãos Coen lançam sua versão de “True Grit” para o público e ainda arrancam dez indicações ao Oscar.

Mattie Ross é uma garota de quatorze anos completamente destemida e está à procura de vingança. Um homem chamado Tom Chaney assassinou a sangue frio seu amado e querido pai. Para vingar-se, Mattie contrata o caçador de recompensas Rooster Cogburn, um homem de bravura indomita. Prestes a partir para o perigoso território indígena, encontram outro homem, um texas ranger, LaBoeuf que oferece ajuda já que ele também procura Chaney.

Explorando territórios explorados

O roteiro de Joel e Ethan Coen adapta fielmente o filme clássico de 1969 e consegue ser um retrato distinto da sociedade da época do velho oeste. Relembra superficialmente o preconceito existente contra negros e índios e a falta de argumento das mulheres sempre desrespeitadas.

Apesar de a trama ser interessante e cheia de reviravoltas, existe algumas falhas. Os diálogos são muito bons e cativam por sua qualidade, mas podem ser demasiadamente maçantes para alguns espectadores. Também existe um problema na falta de sensação de desenvolvimento na jornada dos três personagens, sendo que o desfecho ocorre muito ao acaso e quando acontece, não causa o impacto esperado. Infelizmente, com um universo tão amplo como o faroeste, o roteiro desaponta ao não reapresentar ao público os lendários duelos de pistolas, as confusões e tiroteios no saloon e os clássicos assaltos as carruagens e bancos.

A caracterização criada para os personagens é incrível e marcante. Todos se lembrarão de Cogburn com seu tapa olho e sua mira imprevisível e de LaBoeuf com suas botinhas cheias de sininhos e sua matraca dispare daqui a alguns anos. O humor quase raro no roteiro é existente, porém quando vem é recheado de sarcasmo e humor negro – aquele que todos moralistas “adoram”. Por exemplo, a tragicômica cena dos enforcados.

Bad Bridges

Jeff Bridges realmente encarnou Cogburn durante sua célebre atuação, tanto que conseguiu livrar-se de seus tiques nojentos como suas fungadas bizarras em “Tron” e “Crazy Heart”. Seu personagem é um dos mais legais do filme, assim como sua atuação divertida. Ele é o cara mais bad ass e machão de toda história do gênero, sempre bêbado e pronto para atirar em alguém, porém com um lado sensível que desconhecia. O maior destaque de sua atuação, além do seu andar e de seu jeitão irreverente, é o trabalho com o sotaque que ficou absolutamente perfeito e condizente com seu personagem.

Matt Damon ficou novamente desmerecido no Oscar este ano porque LaBoeuf é um personagem cativante. Ele atua sempre com certa petulância visto que seu personagem é um texas ranger – um posto de luxo para os militares do Texas na época. O sotaque é uma característica diferenciada em todos os personagens, por isso citarei como ele se comporta com cada ator. No caso de Damon, o sotaque de LaBoeuf é legitimamente texano, cheio de curvas, ríspido e um tanto lento, porém ele consegue torna-lo em algo completamente elegante.

A novata Hailee Steinfield nunca havia protagonizado um longa metragem, e, logo de cara, participa de um projeto milionário com dois atores formidáveis e um pouco intimidantes, mas mesmo assim ela conseguiu que não ofuscassem sua presença. Com a marcante característica da teimosia, ela sustenta sua personagem e desbrava seu talento. Novamente, aqui acontece um sotaque diferente dos outros dois, ela cria uma fala rápida e tipicamente caipira.

Infelizmente, Josh Brolin não teve tempo de mostrar seu valor durante o filme – acredito que ele apareça apenas trezes minutos no longa. Graças a isso não é possível associar aquela dimensão de vilania criada pelo roteiro com o personagem devido sua breve aparição. Um ator que provou sua competência e seu timing foi Barry Pepper interpretando o caricato Lucky Ned, esse sim pode assumir o posto de antagonista principal do filme, sabendo medir seus níveis de crueldade.

Novas paisagens às terras desconhecidas

O diretor de fotografia, Roger Deakins, já foi indicado nove vezes para o Oscar e, por algum infortúnio do destino – ou da Academia –, nunca conseguiu por as mãos em um. Isso já dá uma dimensão de sua genial fotografia, afinal nove indicações não são para qualquer um.

Aqui, ele redimensionou suas cores na tela para o amarelo meio bege, o azul claro da noite, branco capturado da neve e, de vez em quando, um tom esverdeado. Também utiliza vários planos clássicos do gênero do velho oeste – planos americanos e conjuntos. O vazio ou o nada da paisagem hostil é utilizado diversas vezes em seus planos abertos. Inserindo os três personagens nesse meio, transmite uma dimensão impactante da solidão e também do perigo que eles vivem. Fora isso, gosta de trabalhar com silhuetas dando um resultado original e interessante ao filme, sendo que o segundo melhor plano que vi na minha vida é resultado do uso dessas silhuetas – espere até a cena da última cavalgada para entender do que falo.

Não é à toa a indicação ao Oscar de melhor direção de arte deste ano. Realmente, o resultado é fantástico. Toda a cidadezinha onde ocorre a primeira parte do filme é recriada com extrema perfeição em todos os aspectos. Até mesmo nos objetos, papéis de parede e claro, o belo figurino detalhado completamente condizente com a época.

O destaque ficou para outro

A música, quando aparece, é boa. Conseguem casar com as cenas e principalmente com a época do wild west. Em especial a primeira música do filme, “The Wicked Flee” é marcante graças à composição feita pelo piano. É interessante citar que as outras composições do filme são apenas variações deste tema alternando o ritmo e os instrumentos. Apesar de a trilha ser composta por Carter Burwell, Iris DeMent marca sua presença com a melhor música da película “Leaning On The Everlasting Arms”.

Entretanto, mesmo com a música muito bem trabalhada e agradável, são os efeitos sonoros que realmente impressionam e indicados ao Oscar – Mixagem e Edição de Som. O melhor exemplo que posso dar de como são bem feitos, são os sons abafados dos tiros. Existe uma cena que Bridges anda até uma aparente mina de carvão e atira para dentro dela. É ali que acontece o melhor efeito sonoro do filme inteiro onde o som da bala reverbera nas imperfeições da mina enquanto se distancia.

The proud of Sergio Leone

Os irmãos Coen já haviam explorado o faroeste antes com o seu neowestern “Onde os Fracos Não Têm Vez”. Como esta versão de “Bravura Indômita” é uma refilmagem do filme de 1969, eles quase se viram de mãos atadas por não deixarem suas características na sua versão.

Entretanto, conseguiram o ultrapassar a barreira psicológica e alterar o inalterável. Suas marcas estão lá, uma delas o absurdo e o inusitado – o homem-urso montado em um cavalo. A violência relâmpago também aparece.

Eles sempre foram uma dupla de diretores que valorizam muito a atuação de seus atores e seus esforços realmente dão um belo resultado conseguindo criar uma harmonia perfeita entre seus atores. Um trabalho tão bom quanto o de Sergio Leone na direção de “Três Homens em Conflito”. Fora isso, a dupla consegue criar uma atmosfera envolvente e profunda de tão detalhada e caracterizada.

Mais uma vez no oeste

“Bravura Indômita” é um ótimo retorno ao mundo caricato do faroeste e consegue consagrar novamente o gênero que andava esquecido. Apesar de parecer parado e monótono, vale a pena pelas belas atuações, suas alegorias técnicas e a direção dos Coen que fica cada vez melhor. Eles provaram não serem necessárias oitocentas mil balas para fazer um ótimo filme de velho oeste.

NOTA: 4.0/5.0

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Publicado em Críticas por Matheus Fragata. Marque Link Permanente.

Sobre Matheus Fragata

Formado em cinema pela UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar

10 respostas em “Crítica: “Bravura Indômita”

  1. Aeeee Matheus!!!! Faz tempo hein?!?! Andei lendo algumas de suas criticas… Muito boas! Concordo com tudo, temos algo em comum relacionado a essa sétima arte…!

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    • Cara, estou respondendo todos os seus comentários aqui no blog e faz tempo mesmo, né. Obrigado pelo elogio, man.
      Com certeza temos a sétima arte em nossas paixões pela cultura hahahha

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  2. Vlw pelas críticas, Matheus! Eu perdi o hábito de ir ao cinema então é bom ter alguém trabalhando duro pra isso (muahahahaha)! Se precisar de ajuda para escrever alguma coisa me fala!

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    • Pô cara, claro que preciso de ajuda. Meu bolso está ficando sem fundos e estou ficando sem tempo para escrever essas resenhas enormes XD
      Toda ajuda é bem vinda, desde que ela não seja ruim…
      Então se esforce!

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  3. Não sou a maior fã de westerns, por isso não apreciei “Bravura Indômita” tanto quanto a maioria, mas reconheço os méritos do excelente ato final da obra. Achei lindo o final! Espero ver Roger Deakins e Hailee Steinfeld vencendo Oscars!

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