Crítica: “Padre”

Padre (Priest)

Em certo dia, uma mulher de classe média resolveu exercitar a pouca imaginação que tinha. Então, nada melhor que escrever um livro para aquecer a mente. Mas um livro era pouco – por que não uma saga? E foi assim que esta mulher destruiu a reputação de todos os vampiros da história do homem. Abandonando as capas sombrias para peles fluorescentes depiladas, os vampiros estavam reclusos em um canto escuro olhando toda sua glória ir para seres nefastos adolescentes. Mas, no fim do túnel, havia esperança. Após “Deixe Ela Entrar”, o tempo finalmente parece clarear para as criaturas sempre famintas.

O mundo já não é mais o mesmo. Os homens são confinados a viver sob a dura ditadura da Igreja em várias cidades cercadas de muros gigantescos. A causa deste futuro pós-apocalíptico foi à guerra travada entre os homens e os vampiros. Os homens, por fim, venceram a carnificina graças aos Padres – treinados pela Igreja com um único propósito, destruir vampiros. Após anos sem conflitos, um grupo de supostos vampiros rapta Lucy, sobrinha de um Padre. Com isso, este Padre deserta a cidade a fim de encontrar sua sobrinha, mas no meio do caminho encontra um parceiro, Hicks. Sabendo que o Padre havia desertado, o Clero ordena o grupo restante de Padres a caçar o fugitivo.

Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte…

O roteiro do novato Cory Goodman adapta vagamente o manhwa de Hyung Min-Woo. No início, sua escrita é praticamente perfeita localizando o espectador em um universo completamente novo. Tudo é pensado: economia, energia, religião, política e a rica sociedade segmentada em diversas classes. Ele também elabora algumas questões sociais muito interessantes que revelam um pouco mais do psicológico da amedrontada população. O contraste que cria entre as cidades do deserto com as protegidas pelos muros funciona perfeitamente. Fora isso, a ditadura apresentada remete muito a de George Orwell em “1984” e seu Big Brother.

Os problemas começam quando seus personagens começam a falar. Os diálogos são esquisitos e desprovidos de propósito sobre sua existência. Aposto que se o filme fosse mudo, todos entenderiam perfeitamente sua historia. Outro aspecto interessante de sua escrita é que em sua adaptação pouquíssimos personagens têm nomes próprios – apenas dois. O resto é referido por suas características e seus cargos públicos como Priest, Black Hat, Monsignor, etc.

Entretanto, o maior problema do enredo é sua total falta de desenvolvimento. Todas as características que listei acima não são minimamente desenvolvidas. Simplesmente são jogadas ao público com desdém. Alguns podem achar um pouco ofensivo a maneira que os vampiros são retratados. Aqui eles são seres bestiais, sem olhos, puramente selvagens muito diferentes dos elegantes, cultos e sofisticados vampiros do tempo clássico. Porém, se a intenção do roteirista era intensificar o contraste social dos humanos com as criaturas – vide a filosofia de liberdade que Black Hat defende no fim do filme, pode-se dizer que funciona perfeitamente.

Outro problema do roteiro é o clímax. Durante a cena tudo indica um desfecho fantástico e empolgante, mas, na realidade, o que acontece decepciona o espectador com uma resolução simplória. Também no clímax, destrói a imagem inteligente do antagonista para mais um vilão raso tão desprezível quanto o resto dos vampiros do longa. Além disso, ele consegue ser extremamente clichê em várias partes. Algumas possuem até diálogos praticamente iguais a de outros filmes como a indubitável referencia a “Piratas do Caribe: A Maldição do Perola Negra”. Outras passagens remetem muito a “Matrix”, “Blade” e “V de Vingança”. Ironicamente, ele não conta com nenhuma que remete ao universo de faroeste que o filme é ambientado. Também é importante citar que a história do filme é muito diferente da apresentada nos manhwas em que os vilões eram demônios, não vampiros.

Silas 2.0

Paul Bettany é um ator competente como ficou provado quando encarnou o esquisitão Silas em “O Código da Vinci”. Neste caso, sua atuação coincide muito bem com o personagem silencioso e misterioso. Ele consegue despertar o interesse do espectador a respeito do passado e futuro do protagonista. O carisma que conseguiu dar ao personagem também é impressionante visto que trabalha muito pouco as suas expressões faciais, além de não variar o tom sereno e monótono de sua voz. Fora isso, as poses que realiza nas cenas de combate são bem orgânicas e dão muito dinamismo em cada cena.

Já Cam Gigandet não chega nem perto de tornar seu personagem memorável ou interessante. Ele é um ator fraco então não há muito que se falar sobre sua atuação. Seu personagem é chato e diversas vezes o espectador nota que a razão de sua existência é causar empecilhos na jornada de Priest. Já Karl Urban tenta criar um personagem um pouco melhor que os outros. Seu antagonista não esbanja crueldade, mas também não deixa o espectador no ócio. Já citei que o filme é clichê, mas aqui aconteceu uma coisa que eu nunca havia visto. Em determinada cena, Urban atua somente com sua expressão corporal que coincidentemente é igualzinha a de Hugo Weaving em “V de Vingança”. Apesar disto, o movimento de Urban é muito mais fluido é bonito tornando sua execução melhor que a de Weaving.

Maggie Q tem a melhor personagem do longa. Ela esbanja sensualidade apesar de não arriscar nenhuma pose provocativa. Assim como Bettany, Q não trabalha nada suas expressões e sua voz levando a crer que todos os Padres tem a mesma característica serena e triste. Christopher Plummer dispensa apresentações, está fantástico como sempre. Colocou profundidade em um personagem completamente raso e clichê – velho truque do governante velho iludido pela história de que o perigo está extinto quando na verdade está na porta ao lado.

Estética da Catedral

Desde o começo de sua divulgação, “Padre” mostrou-se ser apenas uma promessa visual. Isso ele cumpre em todos os aspectos. A fotografia de Don Burgess não desmerece sua indicação ao Oscar por “Forrest Gump”. A atmosfera de sua iluminação é extremamente sombria e gelada puxando várias tonalidades de azul e de vez em quando utiliza o verde – isso reforça bastante a ambientação gótica. Entretanto, a maior surpresa não é esta, mas sim é que ele não opta por deixar sua palheta de cores apenas com estes tons. O filme possui cenas extremamente iluminadas com forte predomínio de tons brancos deixando praticamente impossível distinguir o chão e o céu. Assim, cria quadros infinitos que revelam a devastação “nuclear” da guerra e a inospitalidade do deserto escaldante. Para mostrar isso, opta pelo gigantismo de suas imagens pegando planos baixos e muito abertos.

Ele também é consagrado por sua cinegrafia inteligente. O seu trabalho com sombras é impressionante. Algumas vezes, ele as projeta em objetos criando formas fantásticas de se olhar como na cena da parada do trem em Jericó. Porém, é possível notar com mais facilidade essa característica na forma de como a luz incide na face de Karl Urban – muitas vezes seu rosto é encoberto pelas trevas da sombra de seu chapéu deixando a mostra apenas o olho amarelado. Fora isso, ele também auxilia o diretor em vários planos-detalhe incríveis. Destaque para a transformação fotográfica que ocorre na cena que se passa em Jericó.

Os efeitos visuais do filme também não ficam para trás. Com um orçamento mediano, pode-se dizer que fizeram milagres. O nível de detalhamento das cidades digitalizadas é impressionante. Além da destruição das metrópoles, a animação e o visual das criaturas acompanham a qualidade restante do visual da obra. O tratamento dado a elas é magistral. Todos os vampiros têm uma caracterização orgânica absurda contando até com a pele úmida e a saliva esvoaçante quando berram – destaque para a sonoplastia.

A direção de arte não pode ser esquecida. A recriação de vários cenários como a cúpula, as grutas onde os vampiros vivem e a própria cidade de Jericó são exemplos do cuidado conferido ao tratamento dos cenários. Destaques para a moto e as armas que os personagens empunham durante a projeção. O figurino também é outro aspecto a ser ressaltado. Todas as personagens contam com uma caracterização marcante sendo a melhor delas a do personagem Black Hat – menção honrosa ao espírito “faroeste” que o filme carrega.

Mediocridade divina

A música em “Padre” não é um ponto forte. As composições são assinadas pelo medíocre Christopher Young.

Sua música não é forte o suficiente para chamar a atenção do espectador. Ele claramente se baseia em Hans Zimmer neste caso. Suas escalas de violinos lembram consideravelmente as de “A Origem”, mas mesmo assim não consegue elevar o ânimo do espectador. Poucas vezes consegue soar original. A única composição que consegue sair da mediocridade é a que abre o filme. Nela a criatividade do compositor é posta a prova. Ele mistura o som inigualável de órgãos clássicos mais um coro de vozes surpreendente com um fundo musical elaborado arquiteto por violinos e trombones. A música “Fanfare for a Priestess” também consegue sair da mesmice graças à bela composição das vozes do coral.

Todavia, ele cumpre a função de preencher as cenas com suas músicas. É incrível perceber como vários compositores de hoje não chegam aos pés dos músicos clássicos. Isso é provado pela força do conjunto de obra na cena “maximum clichê” do filme. O uso de “Réquiem” de Mozart ajuda muito a torna-la a melhor parte do filme. Isso também é copiado de “V de Vingança” na cena em que V orquestra a destruição do Parlamento Inglês ao som de “1812 Overture”, de Tchaikovsky.

Falta de Fé

O diretor também é novato no cargo. Com apenas o fraco “Legião” no currículo, já era de se esperar que Scott Charles Stewart não surpreendesse neste projeto. Diversas vezes a falta de experiência se mostra presente. Ele poderia ter censurado vários ápices clichês do roteiro e das coreografias das batalhas – estas claramente inspiradas em “Matrix”.

Felizmente, consegue manter um ritmo agradável em sua projeção, mas isto se deve muito a curtíssima metragem do filme (1h26m). Algumas vezes o diretor escolhe enquadramentos incomuns e sem significado o que acaba prejudicando o andamento de algumas cenas.

Para mascarar sua total falta de presença, insere vários elementos populares do cinema atual. Por exemplo, o uso de slow motions durante as cenas de ação e a conversão desnecessária do 3D estereoscópico – utiliza poucas vezes o efeito de maneira inteligente e elas demoram a aparecer. Além disso, deixa passar vários elementos que dariam um resultado inteligente se tivessem sido casados corretamente com o efeito.

Entretanto, às vezes, consegue ser esperto e poupar recursos do orçamento. Prova disso é a brilhante animação que apresenta o universo fantasioso da trama ao público. Outra característica muito presente em seu filme é a ultraviolência – espere ver muitos desmembramentos e sanguinolência.

A primeira faísca

“Padre” tem potencial para vir tornar-se uma franquia de sucesso. Porém, as faltas de originalidade do roteiro e da direção condenam o filme ao esquecimento e ao fracasso. Ele é esteticamente incrível e algumas atuações não desapontam. Os fãs do graphic novel podem ficar muito desapontados devido a total falta de fidelidade da adaptação, mas aqueles que estão procurando uma miscigenação de gêneros sci-fi, western, terror e ação não sairão desapontados. A sensação durante o fim da projeção é a de que tudo saiu melhor do que o esperado, portanto “Padre” é um filme mediano que agrada no meio de seus tantos erros.

NOTA: 3.0/5.0


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Publicado em Críticas por Matheus Fragata. Marque Link Permanente.

Sobre Matheus Fragata

Formado em cinema pela UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar

14 respostas em “Crítica: “Padre”

  1. É, pelo visto o filme oscila entr altos e baixos. Mas, bacana ver que ele não é uma perda de tempo total… Pensei que estava diante de uma grande bomba! rs Fiquei curioso para conferir!

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    • Ele oscila até demais. Talvez eu tenha sido muito generoso com este filme – estava de bom humor na sessão!
      Encare-o como um 2.5/5.0! Apesar de ser contra, não vá ao cinema para assistir este, mas sim baixe-o na internet. Ele é um filme que merece sua atenção, mas não pegue esses CamRip da vida. Isso desmerece totalmente o trabalho visual do longa.
      Aproveitando o seu comentário, Alan, vou deixar um recado pra algumas pessoas que nunca acessam o blog e vem falar porcaria pra mim depois…
      Eu escrevo textos imensos não por necessidade de mostrar que “conheço” alguma coisa de cinema, mas sim porque me divirto escrevendo-os e gosto muito da repercussão que eles têm. Não sou profundo conhecedor da sétima arte e tento, na maioria das vezes, me informar sobre tudo que escrevo aqui. Principalmente os aspectos fotográficos. Já estudei fotografia, música e leio o livro que todo aspirante a roteirista deve ler. Ou seja, muitas das coisas que escrevo aqui não são baboseiras ou mentiras descaradas.
      Isto é um blog de críticas de cinema. Se você discorda delas, por favor não jogue sua raiva no cara que dedicou seu tempo para escrever um texto de qualidade e informativo para vocês =)
      Anyway, adoro meus leitores! Abraços, man!

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  2. Bem, eu nunca li o manhwa mas apesar de tudo, de todas as oscilações e algumas esquisitices eu até que gostei de verdade do filme. Pra mim apesar de totalmente clichê o Black Hat foi o melhor personagem.

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  3. Tirando seus comentários sobre Christopher Young e sua trilha para este filme, concordo com praticamente tudo que você escreveu — e fico feliz, na verdade, de ver outra pessoa também reconhecendo o potencial que a história tem. Também fiquei incrivelmente satisfeito com a parte técnica deste filme. Aliás, não fosse a péssima repercussão da obra, acharia justíssimo o filme receber prêmios por sua fotografia e efeitos visuais (estes, os melhores do ano até agora, para mim). Enfim, para não ficar repetindo o que você escreveu com mais dedicação, volto a Young: acho-o um dos melhores compositores para filmes com temáticas mais obscuras (filmes de horror, especialmente), e aqui ele conseguiu criar composições muito competentes dando destaques a instrumentos de “música de igreja”. Enfim, é esperar que a história receba bons cuidados de roteiro nos próximos capítulos. E confesso, estou empolgado!

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    • Falei mal da música porque ela não conseguiu me envolver em momento algum. Talvez eu tenha criado muita expectativa para a parte musical do longa graças a abertura em desenho animado (simplesmente animal!).
      Concordo que o filme é injustiçado. Ele não é de todo ruim, apenas mal explorado. O roteiro cai em diversos clichês que poderiam ter sido evitados com o mínimo esforço.
      E a fotografia! Como havia escrito, a achei sublime – praticamente perfeita. O difícil é ler alguns comments que chegam aqui para malhar a crítica, o autor e o filme.
      Caramba, se não gostou do filme, não venha xingar quem escreveu o texto. Isso se repete no “Sucker Punch” só que o caso é o inverso deste.
      Não aceito comentários que não garantem uma boa discussão ou que ofenda o autor ou outros leitores.
      Abraços!

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