Crítica: “Se Beber, Não Case! Parte II”

Se Beber, Não Case! Parte II (The Hangover Part II)

Antes de “Se Beber, Não Case”, os besteiróis americanos possuíam certa falta de qualidade, um descuido com a parte artística e atores abismais. Não eram atraentes e tinham pouca graça. Contavam piadas para os americanos, não para o mundo. Isso não quer dizer que não existiam exceções como “American Pie” – isto não inclui as sequencias imbecis, entre outros. Porém, quando o filme de Todd Phillips estreou, houve uma revolução na comédia americana. Com um humor sutil e inteligente, o trio Phil, Alan e Stu conquistaram uma legião de fãs. O sucesso foi absoluto, a crítica o consagrou, a bilheteria o destacou e Bradley Cooper começou a fazer sucesso. Agora, depois de dois anos, o wolfpack retorna com mais uma ressaca imperdível.

Traumatizado da experiência da despedida de solteiro de Doug, Stu quer se casar da maneira mais calma possível. Mais paranóico que nunca, ele convida Phil e Doug para seu casamento, mais reluta em chamar o lunático Alan. Após a insistência de seus amigos, Stu aceita chamar Alan. Em sua noite de despedida de solteiro, o noivo implora para que seus amigos não aprontem com ele, mas as coisas novamente saem do esperado. Após uma noite louca, Stu, Alan e Phil acordamem Bangcoc. Logo que o efeito do álcool ameniza, eles percebem que Teddy, o irmão mais novo da noiva de Stu, está desaparecido. Assim, o trio tem uma corrida contra o tempo para encontrar o garoto e chegar ao casamento de Stu na hora. Mas desta vez eles contam com a inesperada ajuda de Mr. Chow.

Açúcar, Tempero e Tudo que Há de Bom

O roteiro escrito por Craig Mazin, Scot Armstrong e Todd Phillips segue exatamente o mesmo estilo de narrativa interessantíssimo criado pelos originais Jon Lucas e Scott More. Logo no primeiro minuto de projeção, lança os protagonistas em uma situação desesperadora para depois contar como eles acabaram ali. Se você assistiu o primeiro filme, indiretamente assistiu o segundo graças a escolha desta fórmula do sucesso. Infelizmente, isso torna as reviravoltas previsíveis, a falta do elemento surpresa e o desfecho pouco surpreendente como em seu predecessor. A opção de construir uma narrativa tão semelhante a anterior garantiu um tempo maior para a elaboração das piadas.

Neste filme, assumem um tom muito mais agressivo, sexual e grosseiro com situações mais apelativas em tornar tudo o pior cenário possível. Como de costume, os moralistas podem sair ofendidos, principalmente por uma cena que mostra uma epifania de Alan – considero-a nada menos que genial. A maioria das piadas resume-se no humor negro inteligente e rápido. O maior ponto positivo do roteiro é exatamente este: ser tão engraçado e ridículo quanto o primeiro filme.

Porém, assim como muitas pessoas, encarei negativamente esta escolha dos roteiristas. Foi muito legal na primeira vez, mas certamente não custava nada que eles entregassem uma narrativa diferenciada, afinal a proposta do primeiro filme era a reinvenção do gênero. A abordagem deles é tão igual que o filme conta novamente com um animal exótico – esta decisão foi esperta, depois de Alan, o macaco é o melhor personagem do filme – outra modificação na face de Stu, a desnecessária ausência de Doug na ressaca, entre outras características. Até mesmo falas são copiadas do roteiro anterior como o clássico “What the fuck is going on?!”,além de escolher cenas em interiores que reciclam a arte já ultrapassada de 2009.

Entretanto, eles acertamem retornar Mr. Chow na história – o personagem garante várias das melhores piadas do filme. Novamente, fornecem pistas muito sucintas sobre o paradeiro do desaparecido da vez, que pode ser desvendado, no entanto, por um espectador concentrado. Fora isso, há uma intertextualidade interessante com o filme anterior, visto que muitas piadas são causadas por meras citações das loucuras anteriores do trio. A mudança para Bangcoc, um ambiente mais hostil que Las Vegas, também justifica a abordagem mais rústica do humor. Destaque para a original analogia apresentada pelo sogro a respeito de Stu.

Também houve poucas mudanças quanto ao comportamento dos personagens da história, umas negativas e outras positivas. Phil é o mais afetado. Durante o filme inteiro o personagem parece deslocado e perdido servindo apenas como mediador da situação, além de contar com poucos momentos engraçados. Alan é mais desenvolvido ganhando um destaque maior e uma importância significativa para a evolução da busca. Já Stu continua paranóico e traumatizado carregado de ataques de nervos hilários. Apesar disso, a sensação de mais coisas poderiam ter sido aproveitadas é grande.

The Wolfpack is back

Além das ótimas piadas que o roteiro garante, a qualidade das atuações também não desaponta. Bradley Cooper se esforça bastante conseguindo articular eficientemente as poucas tiradas cômicas que seu personagem possui. Cooper tem sorte de ter um carisma marcante. Duvido que Phil ficasse relevante na trama se outro ator tivesse tomado o papel.

Ed Helms é humorista e aqui, finalmente, teve seu tempo para brilhar – atente para a parte da boate. Utilizando diversas vozes, gritinhos de pânico, expressões de ressaca das mais convincentes, a postura esquisita, gestos imprevisíveis, conquista o público imediatamente. Sua atuação é uma das melhores – repare a mudança de comportamento de seu trabalho antes, durante e depois de sua despedida de solteiro. Seu timing cômico é perfeito. Talvez o único aspecto negativo tenha sido o abandono de sua risada irônica do primeiro filme.

Mais idiota que nunca, Zach Galifianakis explicita como é um ator complexo, variado e criativo. Em “Um Parto de Viagem”, seu Ethan Tremblay era um personagem baseado em gestos afeminados, sotaque alternativo e expressões corporais marcantes. Em comparação com o filme anterior da franquia, sua atuação mostrou-se muito mais oportunista, improvisando sempre que possível, garantindo assim, mais uma vez, as melhores piadas do filme. Galifianakis aposta com tudo em suas fantásticas caretas – principalmente a de choro. Além disto, inova com diversos sons bizarros e a pronunciação de sua fala, ambos completamente únicos. A maior sorte dos três atores é química surpreendente que acontece entre eles.

Justin Bartha é esquecido na ressaca e não pôde mostrar muita coisa nova. Ken Jeong é a maior surpresa do filme. Combinando ele e Galifianakis em cena, é praticamente impossível não rir. Jeong é extremamente caricato e sabe qual é o seu forte, no caso, gestos extremamente exagerados e o sotaque inigualável. Destaque para a macaquinha prego Crystal – a mesma de “Uma Noite no Museu”. Ironicamente, ela proporciona um carisma mais marcante que metade do elenco. Certamente uma bela adição no elenco cômico da cinessérie.

Jeffrey Tambor, Paul Giamatti, Jamie Chung, o péssimo Mason Lee, Sasha Barrese e Gillian Vigman completam o elenco.

Efeito manguaça

É impressionante que Lawrence Sher ainda não tenha sido convidado para se associar a ASC (American Society of Cinematographers). Seu estilo fotográfico é interessante e bem realizado, mas infelizmente este filme ficou fotograficamente inferior ao primeiro. Muito disto deve-se pela troca de Las Vegas por Bangcoc, uma cidade bem menos iluminada e charmosa. Isso foi bom para o cinegrafista que obrigatoriamente teve que modelar a luz com mais cuidado.

Sua fotografia é atenciosa em muitas cenas que se passamem interiores. Diversasvezes, ele satura fortes tons amarelados esfriando-os estrategicamente em alguns pontos com fontes luminosas bem fracas como lâmpadas fosforescentes inserindo tonalidades azuis claras. Isso dá um contraste inteligente entre o azul e o amarelo formando cores interessantes. O resultado disto pode-se perceber na maioria do filme. Com o truque, o cinegrafista destaca os personagens dos cenários e das locações reforçando que eles estão em um meio totalmente estranho ao que estão acostumados.

Já nas cenas exteriores, seu esforço é mínimo: apenas utiliza o eficiente truque de fechar um pouco seu diafragma para diminuir a incidência de luz. Assim o fotógrafo evidencia a atmosfera hostil completamente poluída, carregada e sombria de Bangcoc. O amarelo enjoativo de sua fotografia casa perfeitamente com tudo que o novo filme propõe incluindo o humor mais peculiar. Sher também usa reflexos, desfoques e reproduz com competência a iluminação azul-rosada da boate que os personagens visitam.

Destaques para a direção de arte que novamente surpreende no tratamento dado ao quarto que os protagonistas acordam perdidos. Eles desgastam paredes e as envelhecem garantindo o aspecto porco e nojento. O figurino se faz presente nas vestimentas de Galifianakis. Como sempre, completamente ridículas reforçando o apelo cômico moderno do personagem.

Maldição da comédia

A maioria dos filmes de comédia nunca consegue se destacar no aspecto musical sem recorrer diretamente as músicas licenciadas. Já havia dito antes que “The Hangover” revolucionou diversos aspectos técnicos e artísticos, destacando-se imediatamente no ramo. Apesar da trilha original ter recebido mais cuidado, não emplacou e acabou esquecida e, infelizmente, a história se repete no segundo filme.

O compositor Christophe Beck cria músicas interessantes, mas completamente passageiras. Quando as composições originais aparecem, se resumem em um constante arpejo bêbado e trôpego de um baixo. A música tem a ver com a situação dos personagens e reforça o clima desconfortável que eles se encontram. Novamente a composição do clímax é bem arranjada.

A maior presença musical do filme fica por conta da trilha licenciada. Ela conta novamente com Danzig “Black Hell”,“Stronger”, “Dark Fantasy” e “Monster” de Kanye West, “The Downeaster Alexa” de Billy Joel, “Reminder”de Jay-Z, “The Beast In Me” do imortal Johnny Cash,“Imma Be”do Black Eyed Peas, “Pusherman” de Curtis Mayfield, “Love Train” de Wolfmother e “Turn Around Part 2”de Flo Rida. A edição das músicas é tão eficiente que todas casam perfeitamente com as cenas sendo que algumas conseguem tirar piadas por si só.

One shot, one kill

Todd Phillips tem a mania tem transformar seus projetos em trabalhos completamente únicos. O olhar do diretor é preciso e fatal – ele sabe o que o público gosta e o que vai dar dinheiro. Com a rápida ascensão na carreira, Phillips teve a oportunidade de levar Cooper e Galifianakis para o sucesso.

Suas características se mostram novamente presentes em seu novo filme. Ele gosta de filmar a natureza do ambiente que seus filmes passam. No primeiro longa da franquia, gravou a abrangência do deserto de Nevada e a madrugada iluminada de Las Vegas. Em “Um Parto de Viagem” fez o espectador sentir-se viajando com Downey Jr. e Zach nas estradas cercadas de florestas de pinheiros dando uma parada a fim de mostrar a estonteante beleza do Grand Canyon. Agora neste filme, aproveita as imagens paradisíacas e calmas da Tailândia cheia de bananeiras e encostas perdidas no meio do Golfo da Tailândia. Apesar de se esbanjar nos riquíssimos planos gerais da natureza, não perde a oportunidade de criticar com a linguagem implacável das imagens.

Logo nos créditos iniciais, mostra o cotidiano do povo de Bangcoc denotando o contraste de regiões que beiram a miséria para os riquíssimos e luxuosos arranha-céus. O diretor também gosta de usar o efeito do time-lapse em seus filmes. Time-lapse é uma opção fotográfica de acelerar a imagem. Geralmente é utilizado para mostrar panoramas da mudança das estações do ano.

Phillips conversa muito bem com seus atores e consegue arrancar o melhor da maioria deles. Inclusive, ele se arrisca a fazer coisas que não está habituado, como sequencias de ação. O resultado surpreende. O diretor conseguiu arquitetar uma cena de ação muito melhor que de vários filmes que pertencem ao respectivo gênero. Ela é fantástica, além de ser completamente visível e compreensível – existem filmes de ação que a edição é tão nervosa que mal dá pra perceber o que se passa na tela. Além disto, ele sabe lançar suas piadas no momento mais oportuno, como fica provado pelo grau de qualidade desta parte.

Talvez o diretor tenha abusado demais em usar certos recursos que muitos acharão completamente desnecessários quando conferirem. Porém eles fazem parte da cultura daquele país então a inserção destes elementos já era previsível desde o início da divulgação do filme. O humor continua esdrúxulo de forma habitual, exatamente a cara de Todd Phillips.

Ressacas Incríveis

Apesar de ser praticamente a mesma coisa que o primeiro, apenas com piadas renovadas e a viagem ter passado para Bangoc, “Se Beber, Não Case! Parte 2”é tão divertido quanto o primeiro. Fazia tempo que um filme de comédia não me fazia gargalhar no meu mais puro devaneio – o pior de tudo é que a maioria da platéia do cinema não tinha achado graça da piada enquanto eu me esbaldava em rir por uns dois minutos seguidos.

O novo filme não tem o mesmo impacto quanto o primeiro, mas traz um humor mais interessante de conferir. A qualidade de suas atuações, principalmente o trio principal, é memorável e as músicas também são ótimas. Até mesmo a fotografia quebra o tabu dos filmes acéfalos de comédia. Devo avisar que nas sessões que fui, vi uma grande quantidade de crianças. Isto não é bom, visto que a maioria delas não compreendia as piadas e mal conseguia ler as legendas, além de muito provavelmente terem saído tão traumatizadas quanto Stu. Então, senhores pais, informem-se antes de levar seus pequenos para conferir um filme com uma temática como esta.

Só por curiosidade, se eu tivesse tido a oportunidade de avaliar o primeiro filme daria a nota máxima. Acho injusto um gênero tão mal visado e compreendido como a comédia não ter a chance de ter seus filmes com notas tão boas quanto a de vários pseudo dramas que existem por aí.

NOTA: 3.5/5.0

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Publicado em Críticas por Matheus Fragata. Marque Link Permanente.

Sobre Matheus Fragata

Formado em cinema pela UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar

4 respostas em “Crítica: “Se Beber, Não Case! Parte II”

  1. Eu fui ver uma comédia inteligente e divertida. Para mim pouco importa se eles repetiram a fórmula do primeiro filme e “rechearam” com piadas rápidas e rasteiras. O resultado foi bom e eu me diverti.

    Abs.

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