Crítica: “Quero Matar Meu Chefe”

Quero Matar Meu Chefe (Horrible Bosses)

Milhões de temas essencialmente humanos já foram explorados pelas histórias fantásticas criadas pelo cinema. A comédia abraça as ideias rejeitadas por outros gêneros. Imaginar o assassinato de seu chefe deve ser uma prática recorrente de inúmeros profissionais ao redor do mundo. Diversos são os filmes que abordam esse desejo ilícito do homem de maneira bem-humorada. “Como Eliminar Seu Chefe” de 1980 e “Como Enlouquecer Seu Chefe” de 1999 são exemplos disto. O violento crime também já viu sua glória cinematográfica com “Vida Bandida”, “Matadores de Velhinhas”, “Meu Vizinho Mafioso” e “Um Peixe Chamado Wanda”. Agora, o tema volta com o interessante “Quero Matar Meu Chefe”.

Se você pensa que seu chefe é insuportável, calma! Você não conheceu ainda os de Nick, Kurt e Dale. Nick é o primeiro ao chegar ao trabalho por causa das ordens do tirano Dave Harken. Ele tem esperança de que Harken o promova a vice-presidente graças ao esforço tem dedicado nos últimos anos, mas isso prova não ser suficiente quando seu chefe se auto-promove assumindo os dois cargos. Kurt não tem o que reclamar de seu chefe. A relação entre eles não poderia ser melhor, mas tudo isto muda quando este, repentinamente, falece, deixando a empresa para seu filho, um imbecil viciado em cocaína. Dale trabalha como ajudante da dentista Julia. Seu maior sonho é ser marido e está de casamento marcado. Tudo seria mais simples se sua chefe tarada e ninfomaníaca não tentasse estuprá-lo a todo instante. Cansados dos abusos e humilhações que seus chefes os obrigam a passar, Nick, Dale e Kurt resolvem contratar alguém para assassiná-los. Eis que surge Mother Fucker Jones, o seu consultor de assassinato. Com o auxílio de MF. Jones, o trio encontra sua oportunidade de matar seus chefes.

Como Matar Seu Chefe

Michael Markowitz, John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein entregam um humor bem diferente daquele apresentado por outras duas das comédias de peso deste ano – “Se Beber, Não Case: Parte II” e “Passe Livre”. Ele é muito menos escrachado e apelativo ampliando o possível leque de espectadores. Os roteiristas não falham nas piadas do filme. Elas são, sim, bem engraçadas e criativas. Além disto,  mantêm um ritmo cômico surpreendente ao longo do filme – é difícil ficar sério muito tempo ao assistir o longa. Contudo, o maior trunfo do filme é o trio dos antagonistas. Estereotipados ao máximo como o idiota, o maníaco e a tarada, os chefes dos protagonistas não deixam de divertir o espectador.

Já o trio principal não chega a decepcionar, mas não são únicos como seus chefes. O roteiro pouco trabalha a personalidade deles e também o motivo real para desejar a morte de seus empregadores. O único que realmente possui um chefe insuportável é Nick. Aguentar Jennifer Aniston (Julia) te assediando todos os dias no trabalho não parece um pesadelo para mim. E aturar as piadinhas e as fobias idiotas de Bobby não é algo impossível. Logo, a inevitável pergunta pode surgir na cabeça do espectador – qual o verdadeiro motivo para matá-los? O mais inquietante disto é que esta pergunta poderia ter sido extinguida com o mínimo esforço. Infelizmente, o roteiro não desenvolve ou explora satisfatoriamente as barbaridades que os patrões cometem – o que é muito triste, pois o tema vale ouro de tão bom.

O mais interessante do roteiro é sua honestidade. Ele cita, deliberadamente, suas referências e inspirações admitindo suas limitações. “Pacto Sinistro” do eterno Hitchcock e “Jogue a Mamãe do Trem” influenciaram na construção narrativa do filme. Outra característica bem interessante que os humoristas fazem é o psicológico extremamente disperso e distraído dos protagonistas. Em diversas cenas, eles começam a discutir e acabam desviando do assunto principal da conversa. O protagonista que recebe mais destaque é Kurt. Em incontáveis vezes, os roteiristas inferem que personagem é preconceituoso e possivelmente, homossexual, apesar de ser o “garanhão” do trio.

Os roteiristas fazem do humor inusitado a melhor aposta do roteiro – “I’ve just broke a rock?!” é a melhor delas. As piadas fálicas e vários trocadilhos inteligentes marcam presença. Entretanto, algumas tiradas fogem da originalidade. Usar o recurso ultrapassado da morte idealizada na imaginação de Nick é um exemplo disto. O roteiro também decepciona por nunca criar um evento em que os três chefes se encontram. Outro problema, dessa vez por parte da tradução, são as legendas. Diversas piadas ficaram perdidas no meio delas por falta de esforço na adaptação. Quem for fluente em inglês entenderá melhor as piadinhas cheias de palavrões. O melhor exemplo disto é o personagem Mother Fucker Jones que teve seu nome traduzido para Ferra-Mãe. É curioso notar que a escrita deles tem um teor crítico. Através de um personagem, os roteiristas comentam, sucintamente, sobre a crise de 2008 e o desemprego gerado por ela. Fora isso, o roteiro é lotado de momentos imprevisíveis. Todavia, o desfecho do filme é decepcionante e um tanto implausível.

“Triming”

O elenco concentra-se nos trios de protagonistas e antagonistas. Jason Bateman continua a explorar as expressões de cansaço de “Coincidências do Amor” e “Maré de Azar” – começo a me perguntar se aquela é a feição normal dele. O comediante apresenta um timing cômico melhorado daqueles apresentados nos filmes citados. Ele possui a melhor veia humorística dos três. Consegue fazer o espectador com suas tiradas geniais apenas soltando sua fala na hora certa – “You think?”, “Oh Yeah” e “Oh Toyota…” são poucos exemplos de tudo que apresenta em cena. Às vezes, o ator varia sua expressão facial. Nessas horas, revela seu dom de construir boas caretas desconstruindo um pouco o semblante adulto do personagem. Jason Sudeikis não deixa de divertir, mas é difícil acreditar que um cara tão ordinário como ele fature tantas mulheres com suas cantadas. Ele apresenta uma gama mais variada de expressões, mas devo admitir que não acho esse ator o melhor comediante que há nesses dias. Por último, o incapaz Charlie Day, ou o ator com a voz mais irritante que você provavelmente já tenha ouvido. Sua dicção é extremamente aguda, estranha e esganiçada. Fora isso, Day tem a constante mania de gritar muito alto em diversas cenas. Agora imagine isso combinado com sua voz irritante mais o som do cinema. É um efeito de explodir seus tímpanos. Entretanto, seu timing também é extremamente preciso. Novamente, todos os três atores encontram espaço para improvisar em cena – o resultado é excelente.

O ouro fica por conta dos coadjuvantes. Kevin Spacey toma conta do filme com a caricatura de seu personagem desequilibrado. Spacey é completamente instável em cena tornando o completamente imprevisível. Ele incorporou o psicopata de uma forma interessantíssima variando a atmosfera de sua atuação com muita rapidez. Em apenas um cena, o ator varia o caráter cínico de Harken para um tom de deboche para então tornar o personagem muito ameaçador. Jennifer Aniston parece se livrar da maldição “Rachel” que a assola em diversos trabalhos, mas mesmo assim, algumas expressões são muito semelhantes a da “friend”. Sua personagem é bem diferente do que ela está habituada a fazer, mas ela surpreende com a ninfomaníaca Julia. Quem merecia muito mais tempo em tela era Colin Farrel com o impagável Bobby. Ele é um dos poucos atores que explora totalmente sua expressão corporal e facial para compor a unidade característica completamente retardada do personagem. Tudo em sua atuação esbanja idiotice. Suas cenas são, de longe, as melhores do filme. Destaque para os segundos exemplares do “epílogo”. Jamie Foxx é Mother Fucker Jones. Foxx também surpreende em seu papel com um timing muito bom – a cena que ele conta a origem de seu apelido é impagável. Foxx também não tem medo de explorar o lado ridículo de seu personagem quando faz diversas caretas enquanto toma um drinque através de um canudinho finíssimo.

Donald Sutherland, Bob Newhart, Julie Bowen, Celia Finkelstein, P.J. Byrne e Ioan Gruffudd completam o elenco.

Maldito paradigma

A fotografia de David Hannings é comum ao extremo, mas bem trabalhada. É inútil comentar sobre essa característica no filme, entretanto existem alguns tons que tem um significado em sua escolha. O cinegrafista não foge do ordinário ao optar em tonalidades frias, pálidas e levemente azul-acizentadas na iluminação do escritório em que Nick trabalha. O consultório de Julia recebe tons amarelados e na empresa química de Bobby o amarelo fica mais saturado. Assim o cinegrafista cria um dégradé interessante de tonalidades conforme o trabalho fica mais rústico ou manual.

Outra aspecto da iluminação que vale a pena comentar acontece nas cenas do bar onde os protagonistas se encontram com Mother Fucker. Lá, Hannings admite cores e incidências bem artificiais. A iluminação torna-se mais forte e variada contando com focos azuis, vermelhos, amarelos e violetas incidindo no cenário e nos personagens. As cores bem saturadas ajudam a arquitetar a atmosfera pesada do bar. Entretanto, são somente estes os pontos relevantes de sua fotografia. Mais uma vez, a triste história se repete: a fotografia de filmes de comédia raramente surpreende o espectador.

A direção de arte tem seus momentos de glória na composição da casa de Bobby. O cenário exacerba ainda mais a personalidade imbecil do personagem – é, definitivamente, “um museu do mau-gosto”. Ela consegue até criar umas piadas bem inspiradas – repare na plaquinha “Bobby Pellitt” na mesa do escritório de Bobby.

Clima de elevador

A música de Christopher Lennetz assume um tom típico de músicas-ambiente, semelhante àquelas que tocam em elevadores ou shoppings. A maioria das composições é bem dinâmica. Todas recebem um caimento elétrico com várias distorções inspiradas. A guitarra é muito presente em sua trilha, assim como baterias muito bem ritmadas acompanhadas de saxofones ou trompetes. As músicas cumprem sua função. Elas casam com a cena, mas não são expressivas o suficiente a ponto de chamar a atenção do espectador. É importante citar que várias músicas são apenas desdobramentos da música-tema do filme variando instrumentos ou ritmos.

A trilha licenciada é ótima, mas bem seleta. Spoon abre o filme com a soberba “The Underdog”. “How You Like Me Now?”de The Heavy, “That’s Not My Name” de The Ting Tings e “Kung Fu Fighting” de Carl Douglas completam as poucas faixas da trilha licenciada.

Erros do passado, acertos do presente, promessas para o futuro

Seth Gordon decepcionou com seu primeiro longa de comédia, “Surpresas do Amor”. Porém, a experiência e as pesadas críticas mostraram-se eficazes ao mudar o trabalho do diretor. Gordon consegue um trabalho excelente com o elenco. Tem sacadas simples que deixam o ambiente da película bem cômico. Isso acontece quando pede para seus três atores protagonistas discursarem suas falas ao mesmo tempo ou com uma pequena diferença deixando-as ininteligíveis. O efeito é eficiente e divertido.

Outro exemplo disto é a rápida cena do estacionamento ou nas ótimas piadas do gato. Entretanto, com isso, o diretor acaba perdido em escolher qual é o estilo humorístico do longa. Diversas vezes, ele aposta no humor pastelão – os personagens se estapeiam constantemente, no humor negro e no humor de “situação” ou “momento”. Já sua técnica é mais interessante. Para mudar de cenas, o cineasta aposta em movimentos panorâmicos em grandes planos gerais aéreos combinados com o efeito do time lapse – truque de acelerar as imagens, aliás este é um efeito que aparece muitas vezes no longa.

O manejo do ritmo do filme é gracioso – ele passa voando. Gordon também arrisca ao explorar um pouco mais na criatividade quando insere a descrição dos chefes na imagem quando estes são apresentados pela primeira vez aos espectadores. Porém, por mais que o diretor tenha acertado a mão e tornado o filme agradável, é impossível perdoar a falta de inspiração num filme baseado em um tema tão vasto como este. Tudo acaba mal explorado e superficial deixando a experiência final do trabalho muito decepcionante.

Doce ironia

“Quero Matar Meu Chefe” é um filme divertido que apresenta uma proposta bem mais leve que as comédias já lançadas esse ano, apesar de seu tema mórbido. As piadas inspiradas funcionam e o elenco é fantástico, com exceção de Charlie Day – como havia escrito, esse cara grita demais. É uma tristeza não sair plenamente satisfeito com a rápida conclusão da narrativa que poderia ter sido muito mais explorada em sua totalidade. E, infelizmente, a situação está ficando mais complicada para o filme. Logo nesta sexta dois arrasa-quarteirões estão chegando com fome de espectadores e filmes de comédia não ficam muito tempo em cartaz. Ainda vale mais a pena assistir Jane Fonda infernizando seu patrão em “Como Eliminar Seu Chefe”.

NOTA: 3.0/5.0

“I’d like to bend her over a barrel and show her the fifty states”

Publicado em Críticas por Matheus Fragata. Marque Link Permanente.

Sobre Matheus Fragata

Formado em cinema pela UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar

13 respostas em “Crítica: “Quero Matar Meu Chefe”

  1. Guardarei aquele seu e-mail como se fosse ouro. Nunca fui tão lisonjeado.
    E acho mesmo que vc deveria dar uma chance ao filme.
    Agora gostaria de saber por que, se puder explicar, vc acha as minhas críticas mais legais de ler que as dele. Atiçou minha curiosidade.
    Daqui a pouco confiro a sua e comento aqui.

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    • Hahaha obrigado, Caio. Sei como aquele comment é importante para vc (:
      Bom, você confere destaque a outras áreas que o Pablo dificilmente dá – como o figurino e a trilha sonora. E você interpreta a essência dessas áreas o que é muito difícil, mas super legal de fazer. Então, mr. Villaça que me perdoe, mas sinto um leve ar de superioridade nos textos dele – as críticas dele são muito boas por sinal. Isso não acontece nos seus, aí tudo fica mais orgânico e, como posso dizer, hum, didático de um jeito bom.
      Estarei esperando seu comentário!

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  2. Ótima crítica neste seu aniversário de página.

    Ainda não vi o filme, mas depois do que li, pretendo conferir o mais rápido possível, antes que seja consumido pelas estreias que virão.

    Abraço!

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  3. Quase concordo com tudo. Acho que não vou ter tempo para escrever a minha a fim de fazermos comparações, o que é uma pena.
    Com medo de soar redundante, digo mais uma vez: ótimo texto, muito bem explorado e perfeitamente escrito.
    Parabéns.
    E parabéns pelo aniversário do blog. Não é fácil manter algo com essa qualidade apenas por hobby.

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    • Obrigado, Caio. Me esforcei bastante nesse aqui, afinal filmes de comédia são naturalmente superficiais e logo não rende analises mais complexas – o que é uma pena. Eu também tenho um grande dificuldade em escrever resenhas sobre este gênero, mas essa até que foi mais simples. Haha, obrigado, cara. É, não é fácil mesmo hehehe.
      Abraços!

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  4. Eu meio que concordo, meio que discordo. Acho um desperdício de pele e de grandes atores em um roteiro muito medíocre e uma direção pouco inspirada, ao mesmo tempo que são os atores quem salvam o filme. Complicado!

    Alguns insights:
    – Odeio saber que não existe um momento, um único momento, em que todos os 6 (ou 7, com Jamie Foxx) se reúnem em um mega clímax. Como alguém não conseguiu pensar nisso?
    – Charlie Day = Chris Rock. Simples assim! Chato assim. Histérico assim.
    – Eu sempre vou preferir Como Enlouquecer seu Chefe (Office Space) de Mike Judge.
    – Ah, ou é comédia de humor negro ou é comédia de situação. Não dá para ser as duas coisas ao mesmo tempo e sair ileso disto.

    Parabéns de novo né? O Bastidores é o irmãozinho mais novo do Cinema com Crítica (1 ano e quase 2 anos respectivamente rsrs).

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    • Então você está dividido, Márcio? Hehehe, concordo com seus apontamentos – também sai decepcionado com a história do filme.
      Sua comparação de Charlie Day é perfeita! P**a cara chato e histérico! Nunca vi o “Office Space”, mas como você anda falando bastante dele, vou dar uma procurada. Pois é, muito estranho esse lance do Gordon não decidir o humor do filme… vai entender…
      Mas muito obrigado pela sua presença aqui no post de aniversário! É uma honra o Bastidores ser considerado o irmão caçula do Cinema Com Crítica haha!
      Abraços!

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  5. Ainda não vi. Volto aqui quando tiver assistido ao filme e leio tua crítica.. Mas seu comentário acima me assuntou: “Também gostei mais de “Se Beber, Não Case 2″, Alan”

    Abs!

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