Crítica: Divertida Mente

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Pixar, a fênix!

Desde 2012, o estúdio de animação mais conceituado do ocidente não trazia histórias originais. E, convenhamos, elas faziam muita falta. A Pixar manteve seu padrão de qualidade com os últimos dois filmes: Valente e Universidade Monstros, porém, agora com Divertida Mente, ela volta a surpreender e marcar ainda mais em nossas memórias porque amamos tanto seus diversos trabalhos.

Riley e sua família vivem tranquilamente felizes em Minnesota, porém, devido ao trabalho de seu pai, eles são obrigados a mudar para a apressada cidade de São Francisco. Logo, a pequena garota tem que se adaptar ao encarar a verdadeira primeira mudança em sua vida. Porém, dentro de sua cabeça, suas emoções, Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojinho, trabalham incessantemente para deixar a garota mais confortável com a situação. Entretanto, após um acidente e uma descoberta intrigante, Alegria e Tristeza acabam se perdendo dentro da cabeça da menina. Apenas com a Raiva, Medo e Nojinho trabalhando, Alegria e Tristeza correm contra o tempo para que sua ausência não resulte em uma mudança permanente na personalidade de Riley.

Divertida Mente é o fantástico caso do filme de roteirista – quando o roteiro é tão forte que eclipsa as outras áreas da produção. Geralmente, nesses casos, os próprios roteiristas são responsáveis pela direção do filme. Aqui não é diferente, três roteiristas – Meg LeFauve, Josh Cooley e Pete Docter, desenvolvem o texto da história original criada pelos diretores Pete Docter e Ronaldo Del Carmen.

O texto é excelente. Mesmo pisando em um terreno que já fora explorado em Osmose Jones, eles tomaram muito cuidado para criar características próprias para o filme.  Aqui, como se sabe, tudo cerceia a mente e nossas emoções – algo que nunca é fácil de trabalhar.

O mais impressionante é o teor complexo da história, apresentado de maneira simples e objetiva através dos personagens cativantes. Fiquei surpreso em notar que Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Nojinho não são literais. Ou seja, cada personagem não fica preso na própria natureza de sua proposta. Entretanto, apenas dois são realmente muito bem trabalhados: Alegria e Tristeza. Os outros, infelizmente, servem apenas para continuar a ação, apresentar piadas – algumas incluem o humor slapstick, e motivar conflitos. Acabam virando alegorias, instrumentos de roteiro, mas muito carismáticos.

O que os roteiristas deixam de agregar com as outras emoções para o drama que acontece dentro da cabeça de Riley, eles trabalham com maestria a óbvia dicotomia entre Alegria e Tristeza. O maior acerto, porém, está no intenso trabalho de amadurecimento de Alegria, afinal ela também é parte de Riley, jovem e ingênua. Em diversas cenas a personagem ganha maior complexidade, seja na evidente obsessão em deixar Riley sempre feliz, em seu egoísmo e no aprendizado da inusitada convivência com seu oposto.

Tristeza também é bem explorada, porém, ao contrário de Alegria, a personagem já apresenta alguma maturidade. Mas é exatamente aí que entra o fator mágico e único da Pixar: ela não tem conhecimento de si mesma para afirmar tudo isso. Conforme o filme progride, mais Tristeza se torna funcional e orgânica. O engraçado é que a catarse nunca ocorre para a personagem em si, mas para todos os que a rodeiam. São momentos únicos e encantadores que amadurecem não somente o filme, mas como a todos nós.

A história é igualmente encantadora e faz jus a seus personagens maravilhosos, porém acredito que este seja um dos longas mais previsíveis em seus movimentos e reviravoltas de todo o acervo do estúdio. Muitas características são apresentadas para enriquecer esse universo – sempre em diálogos mais expositivos e didáticos que o necessário — porém, logo se percebe que a mesma será responsável por algum twist futuro. A fórmula para conferir urgência no retorno de Tristeza e Alegria para a “central de comandos” da cabeça de Riley infelizmente é repetitiva. Uma vez que se nota a repetitividade desses acontecimentos-chave, fica fácil de prever o que ocorrerá em cena nos minutos seguintes, incluindo o desfecho do filme.

Outro fator que desagrada é o desfecho concedido para um dos melhores personagens, Bing Bong, ex-amigo imaginário de Riley que ajuda as emoções a encontrarem o caminho de volta para casa, pois contraria o próprio texto e algumas memórias apresentadas durante o longa. Além disso, ao mesmo tempo que consegue ser original em diversas coisas, o estúdio mergulha no clichê durante algumas passagens, mas nada que chega a incomodar de fato. O mais estranho é o critério de interpretar Riley. Tudo fica ainda mais complicado por conta de suas emoções serem mais complexas que ela. Ou não? A relação entre Riley e suas emoções é ao mesmo tempo simples e complicada. No meio disso tudo, aparentemente, a personagem fica perdida nas idas e vindas de sua cabeça – nunca a conhecemos de fato.

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Como havia dito, os méritos do filme se concentram principalmente por conta do roteiro, porém, design de produção e a direção de Pete Docter e Ronaldo Del Carmem são dignas de aplauso. O departamento de design acerta muitas coisas e é questionável em algumas. Como sempre, a Pixar faz milagre em reproduzir o complexo em formas simples. Aqui, tudo é muito funcional e óbvio ao mesmo tempo que exalta o trabalho primoroso da imaginação desses artistas. Orbes, prateleiras, tubos, as ilhas, nuvens, sonhos, medos, enfim, absolutamente tudo, tem um propósito único de sua existência – não se trata apenas de ser fofinho e colorido para vender brinquedos.

O design das emoções é fantástico, ao menos das que vivem em Riley: Tristeza, Medo, Raiva – reparei que toda a figura do personagem se aproxima muito a do ator Lee J. Cobb em Doze Homens e Uma Sentença – e Nojinho – a escolha das cores não poderia ser mais acertada. Entretanto, a concepção de Alegria lembra em demasia com o conceito original da Sininho de Peter Pan. Por mais que a proposta seja remeter Alegria com uma fadinha, leveza, pureza, etc, ainda fiquei com a impressão de se tratar de uma reciclagem caprichada apenas. Também é triste ver que as emoções que comandam a cabeça de outras pessoas terem um desenho de corpo similar – empobrece a concepção visual do longa.

Igualmente inspirada é a representação do universo de dentro da cabeça de Riley. Extremamente colorida e vibrante contrastando com os tons pálidos, frios e opacos da cidade de São Francisco. O estranho é que os tons dessaturados da realidade se mantém até mesmo depois do clímax, ou seja, há algum sentimento pessimista no fim do filme – ao menos na representação das cores.

Já veterano em dirigir filmes da Pixar, Pete Docter que liderou a produção dos ótimos Monstros S.A. e Up – Altas Aventuras, alia seu talento com o “novato” Ronaldo Del Carmem. Porém, ao contrário da sua direção elétrica nos outros dois longas, aqui temos algo muito mais introspectivo abordando os momentos únicos da infância, da vida em geral – essa característica do diretor já era explorada em algumas passagens de Up e até mesmo de Monstros S.A.

Ele começa a definir até mesmo suas marcas como autor. Docter apresenta o filme com diversas passagens da pequena vida de Riley com muita sutileza. É possível perceber o carinho do profissional em cada plano elaborado para retratar a infância da garota – algo belo de ver. Seu trabalho aqui é mais diferente de seus anteriores onde toda a diegese exalava um espírito iminente de aventura. Divertida Mente é o trabalho mais intimista, tranquilo e quieto até aqui.

Os dois diretores não ousam muito com a câmera. Ela permanece parada ou com movimentos tranquilos. Seus enquadramentos também pouco fogem da normalidade. Porém sua simplicidade não é pobre ou enfadonha, mas sim encantadora. O trabalho dos dois diretores também é destacado para representar visualmente o id, ego e superego de sua personagem, além de seu subconsciente.

O humor nunca fora tão presente em um filme do estúdio quanto neste. Talvez seja, de longe, o filme mais engraçado que eu tenha visto no ano. E com certeza, o mais emocionante.

Divertidamente divertido

Divertida Mente é o fim da crise criativa que a Pixar enfrentava nos últimos anos. O estúdio realmente ressurgiu das cinzas com um dos melhores filmes de sua história. A mensagem que ele traz é exemplar para uma sociedade que busca a felicidade a todo custo em sua plena futilidade. É incrível como a narrativa molda a importância da tristeza na vida de Riley e de todos nós.

A riquíssima história nos permite interpretá-la de diversas formas. Ou seja, é de fato um filme plural, vivo e fantástico. Um dos melhores do ano. A dublagem é igualmente exemplar – isso na versão original, cada ator sacou seu personagem muito bem. E a trilha sonora de Michael Giacchino preenche organicamente as cenas com melodias belíssimas – uma curiosidade: esta é a terceira estreia consecutiva que conta com as composições de Giacchino neste ano.

Além de marcar o retorno da Pixar à boa forma, Divertida Mente é a consagração de Pete Docter como um dos melhores diretores do estúdio. Se ainda restam dúvidas, caríssimo leitor, não há o que temer, os poucos tropeços do filme não comprometem de jeito algum seu brilhantismo e elegância.

Bem-vinda de volta, Pixar! Você nos fez uma tremenda falta.

Nota: ★★★★½

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