Crítica: Mais Forte que o Mundo

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Quando 2 Coelhos estreou em circuito comercial em 2011, tanto a crítica quanto o público começaram a prestar atenção no diretor Afonso Poyart, cujo estilo remetia aos cinemas de Guy Ritchie e Quentin Tarantino. Driblando com criatividade um orçamento apertado e desafiando as convenções do cinema brasileiro, que ainda hoje parece temer incursões assumidas no cinema de gênero, o jovem cineasta impressionou pelo uso bem dosado de cultura pop, efeitos especiais, movimentos de câmera inventivos e uma narrativa que brincava com os clichês dos filmes de ação. O sucesso do projeto o catapultou para Hollywood, onde dirigiu o thriller Presságios de um crime, com direito a um elenco estelar que incluía Anthony Hopkins e Colin Farrell. Embora seja um grande salto na carreira, segundo o próprio Poyart, ele teve muito menos liberdade por conta do controle dos produtores americanos, algo que é de fato visível no filme, bem mais contido e convencional que sua estreia na direção.

Talvez isto explique algumas escolhas estéticas adotadas em Mais Forte que o Mundo, cinebiografia do lutador José Aldo que marca o retorno do diretor às produções nacionais, onde, obviamente, encontrou mais liberdade criativa. Talvez até demais.

É importante enfatizar o quão louvável é a proposta de Poyart, que busca oferecer ao público algo diferente, não se conformando com os limites imaginários que nossos cineastas invariavelmente impõem a si próprios. Por este prisma, pode-se dizer que se boas intenções fossem garantia de um bom filme, Mais Forte que o Mundo decerto faria por José Aldo o que Touro Indomável fez por Jake Lamotta. Mas não é o caso.

Da precária vida que levava nas periferias manauaras até o reconhecimento como um dos maiores lutadores de MMA, o filme retrata a trajetória do protagonista através de um frenesi que beira o absurdo. Se no início, quando o foco são os conflitos familiares de Aldo, os incontáveis planos por cena e a montagem fragmentada parecem justificáveis, a partir do segundo ato fica claro que o longa-metragem padece de um grave problema de tom.

Antes mesmo da primeira hora, a experiência de assistir ao filme se revela exaustiva. Cenas onde os personagens simplesmente conversam são filmadas com o maior número de ângulos possível, e, na dúvida de qual usar, a montagem opta por inserir frações de cada um deles. E que fique claro: não se trata de eufemismo.

Seja porque as descobriu ali, no set, e se deslumbrou além da conta, ou porque recebeu algum tipo de patrocínio (ou ainda para pagar alguma promessa, vai saber), Poyart insere tomadas realizadas com GoPro a todo instante e nos lugares mais inusitados – e desnecessários. São momentos que mesclam estranhamento e constrangimento, em um fluxo narrativo confuso e inconveniente. Os raros momentos de trégua deste compasso desvairado acontecem por meio de sequencias em câmera lenta que, por mais visualmente belas que sejam, atestam o quão descabido é a abordagem dada a história. Até mesmo as lutas dentro do ringue perdem o impacto, resultando em um final anticlimático.

E mesmo que o roteiro tenha boas ideias, como evitar ao máximo retratar Aldo como um sujeito infalível e exemplar, o tratamento histérico dado pela direção as desperdiça, assim como o faz com o ótimo elenco. Não importa o quão bem Cleo Pires, Claudia Ohana, Jackson Antunes e Milhem Cortaz defendam seus personagens, já que suas performances são mutiladas e perdem a fluidez na turbulenta montagem.

Talvez o único ileso do grupo seja José Loreto, com sua admirável transformação física. Presente em praticamente todas as cenas, o jovem ator mergulha de cabeça nos conflitos do impetuoso Aldo e impressiona pelo comprometimento.

Contudo, nada chega a redimir o caos narrativo. A impressão que fica é que Poyart se vale do projeto como cobaia de suas brincadeiras estéticas, não se importando muito se são oportunas para aquela história. E nesse sentido o diretor se afasta da malandragem inofensiva de Ritchie e Tarantino, e acaba por se assemelhar mais com Zack Snyder e Michael Bay, cujos filmes são meros pano de fundo para seus cacoetes juvenis tidos por seu fandom como “estilo”. Definitivamente, equivalentes como estes, nosso cinema dispensa.

Nota: ★

Texto escrito por Lucas P. Colaborador do Bastidores.

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Publicado em Críticas por Matheus Fragata. Marque Link Permanente.

Sobre Matheus Fragata

Formado em cinema pela UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar

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