Crítica: O Sangue dos Elfos – A Saga do Bruxo Geralt (Livro 3)

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Após escrever dois livros de compilação de contos sobre o bruxo Geralt de Rívia, Andrzej Sapkowski partiu para um território técnico inexplorado na saga até então: um romance completo. Depois de ler os contos, importantíssimos para entender a história de O Sangue dos Elfos, é muito improvável que restem dúvidas do talento e criatividade de Sapkowski em criar universos fantásticos e épicos repletos de histórias rápidas, cativantes e muito divertidas.

A qualidade apresentada em O Último Desejo e A Espada do Destino é tão monumental que deixaria qualquer leitor ávido para ler mais sobre as aventuras de Geralt. Porém, já tinha receios enquanto essa primeira empreitada de Sapkowski nos romances, afinal contos de pequenas narrativas são muito diferentes de uma aventura que engloba um livro inteiro.

Em parte, meus medos se confirmaram com O Sangue dos Elfos. Incluindo o maior deles: o autor não consegue fazer a narrativa fluir como se deve. Até chegarmos na trama principal do livro, temos que aguentar cinquenta páginas sobre a batalha de Cintra e uma trova de Jaskier – o Dandelion dos games, para um grupo multiétnico intolerante entre si. Esse capítulo de Jaskier tem dois propósitos: demarcar para o leitor como a região de Teméria é fragmentada – semelhante à Europa da Idade Média, e de resumir os contos anteriores para que o leitor de primeira viagem não fique tão perdido com a narrativa.

Quando enfim a narrativa engrena, descobrimos que um grupo está caçando Ciri, a garotinha prometida pelo Destino a Geralt. Como os dois estão juntos em Kaer Morhen, fortaleza decrépita dos bruxos, Geralt terá de protege-la e treiná-la para se preparar para o pior. Porém essa rotina subitamente muda com a chegada da feiticeira Triss Merigold, antigo caso amoroso de Geralt, que pretende levar Ciri para treinar feitiços já que ela possui o cobiçado sangue antigo, o sangue dos elfos.

Quem leu as narrativas anteriores notará logo nos primeiros capítulos como Sapkowski se atrapalha na estrutura do livro. Os capítulos não se comportam como verdadeiros trechos contínuos de uma história só, mas sim como episódios – assim como nos contos. A diferença é que os “contos” não se fecham por si só, mas contribuem para uma grandiosa narrativa de múltiplos protagonistas. Logo, o leitor é onisciente com todos os planos e acontecimentos que ocorrem em Teméria, seja no pequeno escopo com Geralt ou nos grandes plots cínicos envolvendo uma reunião chatíssima dos diversos reis do território que se vem obrigados a colaborar entre si para deter os avanços do exército de Nilfgaard.

Entre os sete capítulos, notamos as embasbacantes diferenças de qualidade que eles carregam entre si. Na verdade, há somente dois que são verdadeiros testes de paciência de tão chatos e burocráticos: o que acompanha a reunião dos reis do Norte e outro que traz a reunião dos magos e feiticeiras do Capítulo das feiticeiras. De modo curto e grosso, são um porre. Ambos têm objetivos similares e chegam nas mesmas conclusões depois de muitas páginas de diálogos pacatos. É o pontapé inicial para a narrativa de grande escopo que Sapkowski pretendeu fundamentar com O Sangue dos Elfos. Os dois núcleos tramam na captura de Ciri.

Caso aguente superar esse miolo morfético do livro, o leitor é recompensado com as boas histórias envolvendo Ciri e Geralt que agora se torna coadjuvante de sua própria história. O melhor “conto” envolve a rotina de Ciri e seus treinamentos com Eskel e Geralt. Nesse capítulo, diversas características novas são apresentadas para os personagens, principalmente para Triss Merigold que recebe contornos muito marcantes em seu conturbado relacionamento com Geralt. Diálogos impagáveis envolvendo a biologia feminina e o constrangimento que essa causa nos bruxos fazem o capítulo brilhar nos arrancando boas risadas.

Porém, é trata-se de uma jornada mais sombria que as anteriores. Os constantes pesadelos de Ciri envolvem todos os personagens em um bom drama, assim como as palavras não ditas entre Triss e Geralt – sempre apaixonado por Yennefer. A adição dos outros bruxos certamente é bem-vinda. Coen, Eskel, Lambert e o velhaco Vizimir trazem o alívio cômico e informações necessárias para deixar a mitologia desse universo ainda mais rica.

Depois, acompanhamos uma jornada longa até Oxenfurt com Geralt, Ciri e Triss unindo forças com a trupe do anão Yarpen Zigrim, também um personagem explosivo de alívio cômico que torna a aventura um pouco mais leve. Apesar de ser uma narrativa bem melhor do que os outros capítulos burocráticos, após um tempo, também se torna um tanto enfadonha. Mas também serve para agregar mais conhecimento sobre a história de Teméria e seu longo conflito com os elfos, agora reunidos numa gangue chamada Scoia’tael e sua conexão com Ciri. Logo, é um capítulo funcional, mesmo se comportando como um filler de narrativa.

Quando finalmente chegamos à Oxenfurt, a narrativa se separa entre Geralt que concentra seus esforços em encontrar o mago Rience que também procura por Ciri. No geral, o capítulo também é parado, com pouco destaque para Geralt. O capítulo é abarrotado de personagens, novos e antigos, como Jaskier, Phillipa Eilhart, Shani e o espião Dijkstra. Ao clímax, finalmente o leitor ganha o payoff esperado com bastante ação e magia, porém a história com Rience não tem conclusão. Tudo termina em um flácido e inexpressivo cliffhanger.

No fim, voltamos a acompanhar o ponto de vista de Ciri, agora morando no orfanato de Neneke em Ellander. Ela aguarda por Geralt, mas sabe que ele está em busca dos grupos que querem matá-la. Já avisada que estudaria magia com Yennefer, ela espera pela chegada da feiticeira. O retorno da personagem com arome de lilás e groselha é um dos pontos altos do livro. Adiciona bastante comédia e o dinamismo necessário para salvar o capítulo.

Ler como Cirilla aprende a se tornar feiticeira, a se comunicar na língua antiga enquanto tenta preservar o treinamento de bruxa ensinado por Eskel e Geralt mantém nosso interesse ativo. Nisso, já com seus 13 anos e se tornando cada vez mais bela, é curioso como Sapkowski cria os diálogos com Yennefer, uma feiticeira que se mantém bela graças ao uso da magia. Então temos diversos diálogos das duas conversando sobre sexo, virgindade e principalmente de Geralt.

Como as duas personagens são extremamente marcantes e cáusticas, o último capítulo do livro se revela também o melhor. Mas também apresenta o maior porém do romance inteiro. Ao contrário de grandes escritores de sagas gigantes como Tolkien e J.K. Rowling, Sapkowski não oferece nenhuma conclusão para a aventura fundamentada aqui.

Absolutamente todos os pontos que ele inicia não possuem desfecho. Ciri parte com Yennefer para o incerto, a última vez que vemos Geralt, ele está ferido sob os cuidados da feiticeira nada confiável Phillipa e o mistério com Rience permanece aberto. O livro inteiro é um gigante capítulo para O Tempo do Desprezo, quarto livro da saga do bruxo.

Para quem já leu os excelentes livros de contos que são absolutamente necessários para entender O Sangue dos Elfos, admito que talvez seja uma narrativa bem enfadonha que não se assemelha com as proezas de escrita que Sapkowski havia apresentado antes. Fica a promessa de que o quarto livro apresente conclusões e não crie ainda mais pontas soltas para essa aventura apresentada aqui. Já para o leitor de primeira viagem, o melhor caminho ainda é começar pelo início da grandiosa saga.

Nota: ★★★½

 

Publicado em Críticas, Recomendações por Matheus Fragata. Marque Link Permanente.

Sobre Matheus Fragata

Formado em cinema pela UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar

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