Crítica: Caça-Fantasmas

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Um dos últimos casos de histeria coletiva que acometeu o mundo pop aconteceu com o novo Caça-Fantasmas. O reboot conseguiu angariar o ódio generalizado de muitos ditos “fãs” da franquia original de 1984. Nas sucessivas ondas de desprezo, o primeiro trailer do longa conseguiu a marca recorde de ser o vídeo mais negativado da história do YouTube. Já com a polêmica, o longa se tornou histórico.

Agora, trinta e dois anos depois que o mundo conheceu os Caça-Fantasmas originais, temos uma nova geração de caçadoras chegando aos cinemas. Mas será que se trata de uma obra tão péssimo como tantos acreditam? Não, na verdade é uma excelente comédia.

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A história tem início com a demissão de Erin Gilbert, uma renomada cientista candidata à cátedra da universidade, após uma sucessão de eventos que levam sua reputação como teórica ao lixo. Tudo por conta das atrapalhadas aventuras empreendedoras de sua amiga de infância, Abby, que abriu um negócio nada convencional: uma empresa que pretende capturar e exterminar fantasmas.

Sem uma oportunidade melhor de trabalho, Erin parte com Abby e sua assistente maluca, Jillian, para a aventura desse jogo de negócios nada convencional. Para a sorte do grupo, uma suspeita infestação de espíritos malignos assola a cidade de Manhattan. Ao sinal do perigo surreal, elas atendem ao chamado.

Qualquer um que tenha o longa de 1984 fresco na cabeça, conseguirá notar alguma semelhança com essa breve sinopse. E de fato, o roteiro de Paul Feig e Kattie Dipold possui uma estrutura narrativa muito similar ao clássico. Apesar de se comportar muito como uma versão vinda diretamente do universo paralelo graças as trocas de sexo nos papéis principais: a equipe de caça-fantasmas e o novo recepcionista, o hilário Kevin, os roteiristas escolhem caminhos bastante seguros enquanto encaixam toneladas de referências e homenagens ao filme original e outros longas clássicos dos anos 1970 e 80.

Portanto, a história é bastante telegrafada e previsível, mas agrada em seu formato graças a semelhança nostálgica. Na verdade, após dois filmes com mesma estrutura, a vinda de um terceiro que conta a mesma história com elementos diferentes pode ser bastante decepcionante para alguns fãs. Tudo depende do modo que irá encarar a proposta desse reboot.

 A liberdade criativa reside mesmo com o fantástico trabalho – o melhor até então em sua carreira, que Feig insere no humor de seus diálogos e encenações criativas na sua direção. Não há como negar, é impressionante como esse Caça-Fantasmas é engraçado. A maioria das piadas funcionam espetacularmente bem.

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Aliás, arrisco dizer que este é o filme mais engraçado da franquia, já que os primeiros nunca foram comédias de rolar de rir, além do timing cômico de Ivan Reitman já ter envelhecido ao longo de três décadas. Feig também acerta em modernizar a diegese do longa. Ao contrário do clássico, temos alguma motivação para o antagonista, o surgimento dos fantasmas tem uma correlação direta com o vilão, algumas personagens têm certa complexidade e boas motivações, a relação com o prefeito é diferente e mais interessante, além do fato delas permanecerem desacreditas pela mídia e população ao longo da cruzada espiritual.

Além desses retoques necessários – e básicos, ao tratamento do roteiro, Feig e seu ótimo elenco se esforçam em criar personagens novas e originais. O novo quarteto nada tem a ver com Venkman, Stantz, Spengler e Winston. Apesar de todas elas se basearem em estereótipos clássicos de esquetes cômicas curtas – temos “a certinha tresloucada”, “a gordinha barra pesada”, “a esquisitona dos gadgets” e a “negra histérica”, as atrizes se esforçam em criar características carismáticas únicas. Quem rouba a cena, sempre, é Kate McKinnon que encarna Jillian.

Como o texto não favorece seu humor, McKinnon incorpora o tipo da esquisitona com louvar a partir de inúmeras expressões visuais contrastantes ou com os muitos reaction shots que Feig encaixa na decupagem com timing ímpar. O diretor também tem a sagacidade de usá-la muitas vezes na profundidade de campo maquinando reações mais sutis e igualmente esquisitas. Aliás, com as inconveniencas inerentes à personagem, é difícil não lembrar da performance de Zach Galifianakis e seu Alan de Se Beber, Não Case. São personagens semelhantes e muito funcionais.

Outro ator que se destaca no meio dos demais é Chris Hemsworth vivendo o personagem mais burro e estúpido do cinema contemporâneo, o recepcionista Kevin. Absolutamente todas as piadas envolvendo o ator são sensacionais. A linha de humor que ele adota é bastante física apostando no nonsense. Logo, pelas idiotices totalmente imprevisíveis do personagem, o ator prova uma verve cômica inesperada.

Porém nem tudo é um mar de rosas para esse reboot. Fora Hemsworth e McKinnon, pouquíssimos atores protagonistas conseguem surpreender ou superar performances anteriores. Isso é explicito com Melissa McCarthy que já nem se preocupa mais em quebrar a personagem que criou anos atrás. Então, caso goste do humor dela, não sairá desapontado, porém é uma zona de conforto que incomoda depois de tanto tempo.

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Aliás, é justamente com ela e Kristen Wiig onde o diretor Paul Feig mais erra no tom. Tentando emplacar muito improviso e na insistência de algumas piadas, o trio só consegue arrancar constrangimento do espectador. Nada de risadas. Esses momentos são recorrentes durante o filme. Fora isso, o diretor derrapa na construção da sequência da primeira captura de espíritos que o grupo faz. Há um corte muito estranho e nada orgânico. Ao menos, o uso do silêncio e de planos distantes, rende uma boa piada.

Fora os improvisos ruins como um diálogo envolvendo coelhos e cartolas, absolutamente todas piadas que envolvem proselitismo político não funcionam. Até mesmo a atmosfera leve do longa se altera quando uma dessas aberrações “cômicas” surgem na tela. Também é particularmente interessante notar como o roteiro desse longa trata todas as figuras masculinas com representações negativas. Repare, temos o idiota, o vilão recalcado, o prefeito que se esconde por trás de sua assessora, dois investigadores bobocas, etc.

Tirando isso, Feig tem seus ótimos momentos dirigindo, enfim, um verdadeiro blockbuster. Até mesmo arrisca na linguagem de gêneros que transitam entre o horror e a ficção científica. Acredite, é possível ficar apreensivo durante algumas cenas mais focadas nos fantasmas. Toda a linguagem visual é correta para o suspense, porém a trilha musical mais infantil sempre quebra a tensão poucos momentos antes da revelação de um espectro.

Não somente na boa encenação, no jogo de câmera adequado e no ritmo certo que Feig trabalha bem. Uma das características mais interessantes do seu comando é justamente na valorização do design de produção e da fotografia bastante colorida de seu filme. Vemos diversos dispositivos novos, a rabeca clássica com a placa ECTO-1, os detalhes dos uniformes e da mochila de prótons em enquadramentos que se assemelham bastante com os de Ivan Reitman no filme de 1984. São homenagens singelas, fan service bem alocado dentro da narrativa. Isso inclui também as diversas participações especiais do elenco original.

Até mesmo na questão tecnológica, o diretor acerta justamente com um dos elementos mais polêmicos do cinema atual: o uso do 3D. Em resumo, é excelente! Feig brinca com os elementos dos fantásticos efeitos visuais ultrapassando as bordas do cinemascope gerando um efeito único de projeção de elementos da tela para o público. É um trabalho que tínhamos visto brevemente em 2012 com As Aventuras de Pi. Aqui, o diretor usa e abusa do recurso. Chega a brincar com a razão de aspecto do longa que se altera durante uma rápida cena em formato IMAX.

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Além dos outros problemas já citados cometidos pelo diretor, o mais grave deles ocorre no terceiro ato espalhafatoso. Feig realmente peca pelo exagero, mesmo que a ação seja bem divertida, o visual dos fantasmas coloridos seja muito interessante e pela beleza visual das pirotecnias, os acontecimentos do clímax se estendem demais oferecendo muito pouco para o espectador em termos de substância. Logo, é fácil ficar cansado já que a narrativa estaciona e não avança até a resolução final do conflito.

Lançado à popularidades extremas graças ao hate generalizado – que vira até piada no filme, Caça-Fantasmas chega agradando bastante com o humor inteligente, ótimas atuações, boa história e visual surpreendente. O longa é extremamente divertido e não chega a se comprometer com os poucos erros apresentados. Realmente teremos de aguardar uma sequência para que a Sony apresente uma história que fuja um pouco da fórmula feita por Dan Ayroyd e Harold Ramis.

Enfim, até mesmo o fã mais fervoroso e irritadiço, nutrido de bom senso, terá que admitir que essas mulheres realmente são ótimas em caçar fantasmas. Querendo ou não, o fazem em um filme bem-humorado de muita qualidade.

Nota: ★★★½

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Publicado em Cinema, Críticas, Lançamentos por Matheus Fragata. Marque Link Permanente.

Sobre Matheus Fragata

Formado em cinema pela UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar

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